As máquinas invertem poderes e sentimentos

O texto é uma confissão. Por mais que esconda sentimentos, ele termina firmando resgistros íntimos. Cabe ao leitor usar da intuição. As ficções pertencem a todos. Cada coisa, que carrego, possui singularidades e entrelaçamentos. O texto escorrega, faz suas curvas, flui na rapidez da digitação. Não se engane com a preciosidade das máquinas. Na pressa, os enganos acontecem, aparecem letras estranhas e sinais inusitados. Cada invenção humana é um reinício de práticas. Não uma novidade absoluta, mas um aviso de que a vida desadormece para receber as travessuras do tempo.

Escrevendo, sinto as estreitezas do mundo. Abro portas e desconfio. Muitas chaves asseguram a vitória da segurança? Prefiro acreditar que a palavra se solta, para alargar o desejo e buscar o outro. Ela intimida, quando sai empurrada, pela apatia, pela obrigação de informar. Por que a necessidade de informar ? Quanto vale uma notícia ? As pessoas transitam com suas muletas. Ninguém vive nas asas dos anjos. As máquinas ajudam, mas, na relatividade das imperfeições, elas também aprisionam.Invertem possibilidades e reconfiguram escravidões.

Retome as industrializações. Muitos cantos progressistas, teorias sobre o valor de troca das mercadorias e sindicatos dispostos a denunciar as explorações. O capital seguia invadindo, na secura da acumulação. Jornadas de trabalho intensas e falta de tempo para desfrutar das conquistas.Os controles não se desfizeram, nem os prazeres se multiplicaram. A sofisticação dos disfarces ganhou um espaço inegável. Satisfez a riqueza de uma minoria, porém manteve ordens sufocantes para  maioria.

As culturas possuem ritmos diferentes. Os colonizadores expandiram seus negócios e se justificaram fortalecendo o etnocentrismo. Apesar das ciências, desigualdades se firmaram e preconceitos consolidam a continuidade da disciplina desmesurada. Há países cientes de seus poderes e de suas estratégias de dominação. Os pobres correm em busca de lugares, de sobrevivências . Jogam-se, na política, imitando, às vezes, os autoritários e produzem colonizações internas. O dinheiro e as suas ofertas subornam. O elogio ao desenvolvimento subverte atitudes e recria afetos desencontrados.

Lembro-me de muitas teorias ou romances que previam um mundo de liberdade. O trabalho não estaria, então, subordinado às questões salariais ou à opressão das técnicas. Não aconteceu o sucesso magistral das visões redentoras. O ritmo da industrialização, ainda, é ouvido em muitos territórios. O descanso é quase uma dádiva. A escravidão recebe outros nomes. Quem gasta dez horas, por dia, na labuta cotidiana, pode se considerar construtor da sua autonomia? E a falta de pertencimento que sacode as pessoas nos espaços áridos?

O importante é, na ambição, o resultado. Os números do PIB são estampados de forma eufórica. Uma matemática de iniciados que não se lança no vaivém dos  sentimentos, mas na concentração de televisões, celulares, camas, ar-condicionados, sofás, geladeiras… Acompanhe as aventuras do Big Brother e veja por andam as manipulações. A inocência forja bipolaridades e aciona os poderes do Lexotam. Há relações sociais hierarquizadas  e gente que sorri, com um cinismo primoroso. Quem fica quieto, nem mesmo gesticula, envolve-se com simpatias sinuosas. A vida não se faz sem as escolhas, nem se anula com as dúvidas.

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4 Comments »

 
  • tamires veríssimo disse:

    texto muito bem construído , parabéns que você continue escrevendo e consiga despertar nas pessoas o gosto pela criticidade

  • Tamires

    Grato. Apareça sempre.
    abs
    antonio paulo

  • Antonio Dantas disse:

    “Cada invenção humana é um reinício de práticas. Não uma novidade absoluta, mas um aviso de que a vida desadormece para receber as travessuras do tempo”.

    Rezende, lendo esta parte do seu texto, lembrei a famosa Lei de Lavoisier e sua célebre frase: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

    Pode parecer clichê o uso desta frase no comentário do texto, no entanto, creio que é válida uma analogia entre as modificações realizadas na natureza pela ação humana, que confirmam a declaração de Lavoisier, e as invenções humanas na pós-modernidade, que não apresentam novidade alguma, mas apenas revelam “um reinício de práticas”.

    Não precisamos criar mais nada. Todas as coisas já foram inventadas, agora, precisam apenas ser aperfeiçoadas ou adaptadas para as diferentes épocas e povos segundo suas necessidades. As Invenções se repetem, às vezes, com diferentes nomes, mas continuam possuindo a propriedade de nos escravizar, nos tornando inteiramente dependentes delas.

    Ao acordarmos, antes de qualquer outra coisa, ligamos nosso computador para ler nossos e-mails, a TV, para ficar por dentro das primeiras notícias do dia e só depois destes “rituais pós-modernos”, lavarmos o rosto, desejamos bom dia a nossas esposas, despertamos nossos filhos para a escola e tomarmos nosso café da manhã. Nossas práticas denunciam a manipulação a que estes “novos tempos” nos submetem.

    Quando esquecemos o celular em casa, ficamos desesperados, parece até que foi o nosso órgão genital que foi esquecido. Se a internet cai, é o fim mundo! Ou é como se estivéssemos fora dele, aliás, tudo que você precisa está lá…

    A correria do dia-a-dia nos conduz a um ritmo de vida onde atribuímos demasiado valor às coisas supérfluas e à solicitude pelas nossas vidas. A percepção das pequenas coisas passa totalmente despercebida. O capitalismo nos transforma em escravos do tempo e de suas invenções. Quantas vezes nossos ouvidos, habituados a ouvir o canto dos pássaros todas as manhãs, não percebem quando acordamos num dia de chuva, que nestes dias os pássaros não cantam.

    Somos produtos do capitalismo, ele assim nos fez: Humanos sem sentimentos, sem percepções, sem tempo para perder tempo com coisas que realmente importam na vida. No mundo pós-moderno não há espaço para as reflexões e questionamentos. Temos que ser ágeis, objetivos… Nos tornamos cada vez mais frios, individualistas e solitários. Não refletimos, não questionamos, não dialogamos, não sentimos, não amamos, não criamos mais nossos filhos…

    … Entregamos unicamente nas mãos das escolas o papel de educá-los… De prepará-los para as competições da vida… De ensinar que eles não vieram ao mundo em cegonhas, que Papai Noel e Coelhinho da Páscoa não existem e que o leite que bebem não saiu das caixinhas Tetra Pak.

    Parabéns pelo excelente texto e por seu senso crítico.

    Um forte abraço,

    Antonio Dantas

  • Antonio

    Seus comentários trazem sempre sugestões e boas reflexões. Vai fundo nos temas.
    abs
    antonio paulo

 

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