As medidas soltas do vazio, da fama, do capitalismo

Gosto de analisar opiniões soltas, aparentemente, vazias, noticiadas para causar desconfortos ou ciúmes. Elas surgem sempre. Não provocam muitos ruídos. Focam-se em aspectos mínimos ou, às vezes, querem ressuscitar dinossauros. Significam intrigas, com data carimbada, para quem está de olho nas andanças das histórias do mundo. Recentemente, o ídolo Messi deu uma balançada no campo da fofoca. Não perdeu tempo de assegurar seu lugar privilegiado na vitrine. Elogiou Maradona, a grande estrela argentina, e ignorou o rei Pelé. Polêmica velha, mas que sacode fanatismos e acorda rivalidades. Quem se atreve a atiçá-la ganha destaques e  acende as cores das nacionalidades desbotadas.

Messi não conseguiu encontrar seu badalado futebol-arte jogando pela pátria amada. A frustração traz observações variadas. Há quem diga que ele não sente o feitiço da camisa. Saiu muito jovem da Argentina e apaixonou-se pelo Barcelona. Tem um sangue espanhol que dificulta sua leveza quando veste a camisa platina. Suas atuações estão abaixo do valor de quem que empolga multidões e recebe aplausos internacionais. É apontado como o maior craque da atualidade, incomparável e regente da sinfonia da sua equipe brilhante e fora das medidas comuns.

A situação de Messi lembra um dos cenários  marcantes do capitalismo globalizado: o agitado mercado da bola. Há quem o despreze, seduzido pelos discursos de Obama ou pelas rebeldias no Oriente Médio. Tudo possui seu alcance e seu fascínio. O futebol não é um negócio qualquer. Não se restringe aos milhões de euros ou ao espetáculo deslumbrante das Copas. Há interesses políticos, brigas entre as corporações, alianças mafiosas que contemplam o seu estar-no-mundo. O Brasil vive, agora, as controvérsias de arrumar-se para ser a sede de mais uma competição internacional. Os gastos não estão sendo transparentes. O Ministério Público mostra suas desconfianças e promete investigar.

O caso de Messi levanta questões culturais e simbólicas profundas. Na corrida para construir fortunas, muitos artistas da bola esquecem  compromissos éticos. Abandonam clubes, famílias, sonham com a fama e a grana acumulada. Mudam de nacionalidade. Festejam outros costumes e inventam argumentos para justificar novas escolhas, forjando sentimentos e seguindo o ritmo de outros hinos. O pragmatismo não veste, apenas, as euforias e os cinismos políticos. Ele institui as práticas competitivas, entrelaça-se com astúcias do capitalismo, olha o passado com descaso. O mundo é da televisão colorida, da Nike, Adidas, Sony, Santander e seus anúncios maravilhosos.

Quem sabe se Messi não se acha perdido entre tantos poderes e especula teorias sobre a nova ordem social? Como ele percebe sua ida para Espanha, sua inserção em outra cultura e seu apego a outras tradições? Será que tudo isso o incomoda ao ponto de atrapalhar seu talento? O que significa negar a magia do futebol de Pelé, torná-la comum e pouco digna de comparação com as aventuras de Maradona? Pense nas respostas imaginárias. Divirta-se com uma sociedade que, rapidamente, anula sociabilidades, e fecha seus sinais para o trânsito do que não é superficial, enlouquecida com os valores de troca e os ornamentos dos deuses de vidro e de barro. Centre-se no voo do trapézio das suas incertezas.

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10 Comments »

 
  • Angélica de Paula disse:

    Antônio Paulo,

    seu comentário me fez pensar no quanto o universo do futebol se encaixa como metáfora do nosso próprio mundo. Cheio de estrelas, que nem sempre têm muito a dizer, abarrotado de coadjuvantes loucos para ter sua chance, e dominado por um conglomerado de marcas e patrocinadores que não perdem a chance de achar um lugarzinho em nossa casa, digo, uniforme.

  • Emanoel Cunha disse:

    A sociedade vive num caos onde a individualidade é uma de suas marcas mais fortes e a preponderância humana é posta na modernidade como algo que é claramente visível é intrínseco nas relações sociais. A fama vem encaminhada nesse emblema, e é através do capitalismo que a desconstrução das relações sociais de valorização do ser humano são demolidas. É incrível refletir e analisarmos como o capitalismo com suas astúcias tem o poder de corromper a sociedade em todos os ângulo, pois além de tornar o ser humano completo, a mesma também o torna vazio. Vivemos em uma sociedade utilitária onde o que importa é o imediatismo das coisas e os valores morais, é muitas vezes, colocado em segundo plano.
    Abraços, parabéns pelo texto professor.

  • Emanoel

    As dificuldadez são muitas, mas a crítica ajuda a compreendê-las. Você tocou em pontos importante e fez uma análise
    interessante.
    abs
    antonio

  • Angélica

    O futebol tem uma forte inserção no mundo atual .Diz muito das suas armadilhas e fascínios. Fez uma boa análise da metáfora que o futebol sintetiza..
    abs
    antonio

  • Filipe Machado disse:

    As ideias sobre democracia, nacionalidade e nacionalismo perderam sua essencialidade, são expressões de um passado cada vez mais saudoso. Os ideais do novo mundo, globalizado, não nos permitem repensá-los, tornaram-se, quase tão utópicos quantos os temas te outrora. A democracia de nossos dias é a representação das grandes corporações, que loteiam o globo em áreas de consumo.

  • DIÓGENES disse:

    O que ocorreu com Messi mais cedo ou maus tarde ocorrerá com Neymar. Sua ida para a Europa pode ser fundamental para seu futuro esportivo, mas as relações culturais que se estabelecerão será decisiva para seu comportamento extra-campo.
    Para uma avaliação podemos perceber como um garoto como é Neymar pode ser pai? 19 anos? A maturidade onde fica. A paternidade leva a uma grande responsabilidade !
    As políticas de marketing que lhe envolve já garante seu salário! Cuidado seleção e se ele começa a pensar a amarelinha como mais uma camisa no seu guarda-roupas.
    Tudo é um jogo político que se enrosca no futebol e vai enferrujando seu brilho. Por trás das metas que consagra um time há grandes cartolas vejam Ricardo Teixeira, eterno presidente da CBF.
    O ministério público daqui uns dias vai receber um grande cálice e falando das promessas de investigação das obras da copa…
    As obras já andam em passos de tartarugas, os aeroportos é um só caos, mas 2014 vai chegar e será apenas: mas uma copa, do jeito que está não será nenhum espetáculo. Para se ter uma idéia o maracanã foi construído em 8 meses, sei que o contexto era outro mas a vontade era imensa. Os projetos gráficos das próximas copas já superam nossos estádios que de acordo com o cenário violento que se encontra lhe coube bem a denominação de ARENA.
    Finalizando a arte do Futebol já foi encoberta pelo manto negro dos cartolas corruptos, o interesse não esta nas belas apresentações dos jovens craques mas no que eles podem proporcionar de aumento nos cofres dos times numa sociedade com grandes corporações.

  • Diógenes

    Relmente, quando a grana entra no futebol e fascina as pessoas , surgem problemas sérios. Mas essa é rota do individualismo que tira as possibilidades de uma sociedade justa.
    abs
    antonio

  • Filipe

    Mesmo com as crises e descrenças, não custa alimentar os sonhos.
    abs
    antonio paulo

  • Thiago Augusto disse:

    O fraco desemprenho de Messi na seleção argentina – sendo ele o melhor jogador do mundo na atualidade – pode deixar a gente intrigado sim… talvez até mais perturbados do que ele próprio, rsrs! Não sou tão generoso quanto o professor, não acho mesmo que o craque se veja perdido entre tantos poderes e especule teorias sobre a nova ordem social. Isso é para os intelectuais pernas de pau como nós… Mas que isso daria um bom roteiro de cinema isso sim! Ou um bom livro. Já pensou? Astro do futebol conspirando contra o capitalismo a partir de sua própria angústia. Seria um best seller!

    Abraço, professor!

  • Thiago

    É mesmo curioso esse mundo da bola. Muita grana tira o equilíbrio. Só mesmo fazendo ironias e perguntas soltas para entender certos comportamentos.
    abs
    antonio

 

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