As mercadorias modelam as vitrines do mundo

Seria difícil imaginar um mundo tomado pelas mercadorias. Estou pensando  em que vivia no tempo de Platão. Mas a economia modificou-se muito. O trabalho assalariado ganhou espaço e as fábricas apareceram. Os mitos têm outras moradias. Não se chamam mais de Zeus, Baco ou Afrodite. Os altares possuem outras configurações. As crenças e as verdades escondem-se em territórios da tecnologia e do luxo.

Foram séculos de lutas. Perdas imensas, mortes violentas, utopias de paz, narrativas de ficções extraterrenas. Quando ocorrem as transfomações há uma reviravolta em muitos hábitos. Há os que defendem o progresso e maldizem o passado. Esquecem que os tempos dialogam. A ordem e a transgressão se movimentam trazendo limites e rebeldias diferentes.

O futebol vive, atualmente, no mundo do espetáculo. Não cabem exibições em campos de várzeas.Tudo move-se para sofisticação. A concentração de riquezas é um fato e não um projeto de intelectuais liberais. O mercado da bola acompanha o fluxo dos negócios. O jogador não só recebe sua remuneração. Ele é uma mercadoria na vitrine das especulações. Seu valor varia, como também o tamanha da vitrine que o acolhe.

Nem todos usufruem das mesmas vantagens. Os lugares definem privilégios e poderes. Para um jogador, não é a mesma coisa está no Milan, no Santa Cruz, no Parma, no Real Madrid ou no Santos. Os exemplos são muitos, pois a multiplicidade de rótulos faz parte dos segredos do capitalismo.O consumo é a chama da onipotência pós-moderna. Talvez, com revoluções radicais a vontade de comprar deixaria de ser tão soberana.

 Os clubes passam, por transtornos, quando não conseguem fluir seus negócios. A instabilidade das idas e vindas dos faturamentos influencia na queda de produção das equipes. A  mercadoria-jogador exige cuidado, ocupa destaque de antigos mitos, cerca-se de empresários com artimanhas bem-sucedidas.Nem todos cedem às polêmicas leis do mercado. Há desconfianças, enfrentamentos, convicções de honras e princípios. Mas a ingenuidade escapou do paraíso, foi para o planeta da serpente.

Cada coisa tem seu status. A camisa de Robinho ou de Ganso não tem o mesmo preço da que um jogador da série C usa. O preço é a alma do negócio? A desigualdade precisa ser cruel, para construir sinais de insubordinação? As formas de dominação contém estratégias sutis e assinalam os encantos das vitrines mais ousadas.

Dentro da aldeia global , sobrevivem relações de poder, às vezes, estranhas. As dissonâncias provocam ecos que muitos não escutam. Por isso, o futebol luta para não perder o ritmo veloz dos senhores das finanças. Os resultados inesperados tornam as torcidas inseguras. Muitas explicações são vazias e dissimulam raciocínios enganosos. 

A impaciência estimula a sede de conquistas. Ela representa acesso às maravilhas que o mundo-mercadoria promete. O gol, bem tramado, fica , melhor visto, nas imagens dos programas esportivos. O espetáculo, sem mídia, fragiliza os ruídos do sucesso. Os vidros das vitrines mudam de cores e  vestem a sabedoria dos interesses. Na construção do cotidiano, as pedras, apenas, compõem as armaduras dos edifícios. Nada de jogá-las para estragar os vidros ou riscar a sedução das mercadorias.

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