As moradias do mundo de fronteiras soltas

Ocupar territórios faz parte da travessia histórica. Exige estratégias de dominação e práticas sociais renovadoras. Não se cogita, aqui, avaliar justiças ou definir valores. Na medida em que as invenções culturais ganham força, regras e limites se tornam mais complexos. É preciso lidar com as diversidades de formas e de recursos. A sociedade continua desigual. As referências são confusas, porque a luta por privilégios é constante.. As competições não cessam, portanto as astúcias e as violências se multiplicam. Há planejamentos políticos ou manipulações econômicas abertas. Encontros internacionais, com pompas e circunstâncias, procuram um consenso para apagar controvérsias, mas as diferenças são visíveis. A sociedade se reúne, porém, no vazio, celebrando a diplomacia.

Todos moramos no planeta terra. Ele sofre agonias. Há alternativas, interesses, jogos de exploração e agressividades tecnológicas. Morar tornou-se um problema que atiça conflitos internacionais. Há milhões de refugiados, numa situação para além de qualquer dignidade. Os grandes centros urbanos, também, vivem, padecimentos diários. O desconforto é agudo, traz insegurança, ameaça os grupos sociais, cria hierarquias. A especulação assombra e o concreto armado se espalha de maneira soberana. Os governos não conseguem cortar as extravagâncias das negociações capitalistas. Sucumbem diante de parcerias frágeis.

Surgem as questões da moda que viram notícias, recheadas com opiniões de especialistas. Fica-se na superficialidade. Sabe-se que há empresas de comunicação que não estão ligadas no nó das questões. Promovem shoppings, loteamentos, exaltam investidores, lamentam quando os cenários se agravam e os miseráveis mostram seus incômodos. A moda é discutir a imobilidade. Contraditoriamente, os automóveis são figuras das mais sofisticadas propagandas. São pérolas do mercado. E o transporte coletivo, a racionalização dos traçados urbanos, a repartição dos benefícios sociais? As manobras do poder geram impasses. Deixar de fabricar máquinas produz desemprego, pode desmantelar a centralização das riquezas.

Não faltam máquinas, não faltam reclamações, não faltam fetiches e desacertos. A moradia deveria significar  aconchego. Se as desigualdades permanecem não há como reconfigurar a sociedades. Não adiantam simpósios gigantescos. Na prática, prevalece o lucro, com todas as suas manhas. Quem não se arruma, mora nas ruas, nas praças, nos viadutos, em pequenos espaços sombrios. Quando se debate as formas de violência, muitas vezes, se esquece que a história narra dificuldades, assinala a superação de culturas em busca de, espacialmente, se organizarem. Não é, apenas, o luxo, a sua exibição, mas a maneira de se relacionar com a natureza, de não destruir lugares de sossego.

A moradia simboliza afeto. Se as sociedades a desprezam é porque a convivência cotidiana revela tensão. O culto ao trabalho, num sentido mais servil, marca os desejos de cada um. A moradia é uma raiz? O mundo exterior atrai, mesmo que o medo atrapalhe sua movimentação. A moradia é uma passagem, ambicionada e, ao mesmo tempo, desconectada das possibilidades de articular com mais solidariedade os sujeitos sociais. Os recursos naturais são limitados. A escassez não é uma fantasia. Existem cartografias de poder que fazem de cada gesto uma escorregadia maneira de manter as aparências do sucesso. Os enganos, tabmém, são históricos.

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