As multidões e o consumo virtual: inquietudes cotidianas

Quase inexistem feriados como antigamente. Querer escutar o silêncio não é um desejo bem aceito nas grandes metrópoles. Há celebrações de dias santificados, de lutas conquistadas, de heróis nacionais, mas há sempre algo funcionando, uma venda, uma troca, uma cerveja, uma vadiagem pouco tensa. A cidade dividida produza certas confusões. Os bancos fecham, os shoppings abrem. Nem pense que o sossego será desfrutado numa sala de cinema com público reduzido. A rua é o espaço, mais ainda quando  se visualiza segurança e possibilidades de descobrir coisas novas. Ficar em casa parece que não pertence às agendas, mesmo as disciplinadas e preguiçosas. A internet atrai, a televisão possui fascínios, porém o deslocamento limpa a vista e a cabeça.

É curioso como os espaços enchem-se pessoas de todas as idades. O exercício é andar pelos corredores dos shoppings, olhar as vitrines, fazer pequenos comentários e, nem sempre, investir na compra de alguma coisa. O gosto pelas novidades contamina e os cartões de crédito garantem certa ousadia. É difícil alguém sem uma pequena dívida. Os anunciantes não perdem tempo, mobilizam vendedores, pactuam com as agências de publicidade. O capitalismo com seus caminhos de sedução. Consumir dá prestígio, lembra as cidadanias do ter. As contradições continuam, mesmo que adormeçam nos segredos dos desejos.

As instabilidades não cessaram, pois as populações crescem e demandam produtos. Os salários jogam duro com muitos e asseguram mordomias para outros. Qual é o critério de justiça que prevalece? Será que existem equilíbrios no mundo das mercadorias descartáveis? Os discursos progressistas enganam, porém as dificuldades retornam e ameaçam quem se julga dono de todos os controles. As minorias desfrutam das vantagens mais espetaculares. Não vivem, contudo, sem medo, escapam dos tumultos, se cercam de máquinas vigilantes, fazem viagens, temem sequestros. Esconder as diferenças não desfaz as desigualdades, alargar as dúvidas.

O descanso torna-se uma ficção. A sociedade do lazer é uma promessa. É indiscutível que há diversões, shows maravilhosos, esportes alternativos, bares com bebidas importadas, tudo que sacode a grana e assanha a ambição. No entanto, o trabalho tem que ser redobrado. Os momentos de descanso terminam sendo contados, para não obstruir negócios. O afeto vive-se quando há uma folga que não comprometa os lucros. Há estratégias: encontros que reúnem o lazer e aceleram montagem de empresas. A confusão não permite que se estabeleçam fronteiras. Os sorrisos, muitas vezes, disfarçam astúcias e sedimentam acordos pouco éticos.

Muita gente indo e voltando, esperando à noite, imaginando a moradia. O mundo externo não deixa de tocar cada um. As multidões não significam o fim da solidão. A quantidade é regra, mas desmonta ingenuidades de quem se projeta para consagrar encontros que se fecham em cálculos. Quanto tempo me resta, quantas pessoas me conhecem, quantos automóveis possuo, quanto afeto perdi? Tudo se transformou com muita velocidade. Não são os valores que desapareceram. Os instantes que sobram para repensá-los trazem incertezas. A sociedade está submersa no trabalho, nem consegue avaliá-lo. O que ser quer com tanta coisa? Os relógios são onipresentes e não perdoam.

PS: Por motivos de agendamento, com erro na data, o blog de amanhã está saindo hoje. Daí, as incorreções iniciais, por não ter sido feita uma revisão mais apurada. Espero que, agora, as coisas tenham se acertado. Desculpe, mas nem sempre domino a máquina( Sexta-feira, dia 20, 14,41)

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6 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    O mundo de hoje em dia é da inquietude, pouco se ver do que seria o verdadeiro lazer ir a uma praça, olhar a natureza e bater uma boa conversa, infelizmente quando a ambição do consumo bate o que se realiza na maior das velocidades é ir a um shopping se deliciar na mac e estourar o cartão na c&a, é o consumismo exarcebado virando a cabeça do mundo, a tradição já se foi, mas os sonhos alimentam esperanças.

  • Diógenes

    É a falta de práticas de solidariedade e a valorização das máquinas. Isso gera a velocidade e o interesse no descartável.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane disse:

    o consumismo domina; deixa mentes impregnadas; está o tempo todo em ação dentro ou fora de nossos lares.Ludibria quando a mídia nos faz acreditar que tudo que temos está ultrapassado.Para o mundo hodierno o que vale é descartar,seja lá o que for:coisas, pessoas e até dinheiro para quem não sabe valorizá-lo.Mas ainda há quem aprecie o belo, o simples, o verdadeiro e o que é duradouro sobrepujando o efêmero.essa é a boa notícia.

  • Ladjane

    Fez um bom comentário analisando os contraste que nos cercam. São muitas diversidades, muitos sustos, mas a vida segue. Não custa também ver outras esperanças e não ficar só lamentando.
    abs
    antonio

  • Canto da Boca disse:

    É assim: primeiro eu leio o texto com muita voracidade, e ele então me engole; depois eu recomeço a leitura e calmamente vou lendo tudo de novo, sem o afã do instante primeiro em que devoro cada letra como parte única de um nababesco banquete (nem é o de Platão, e nem é o de Trimalcião – do Satiricon -), e deleito-me com a lucidez da sua narrativa, Antonio, apesar de se tratar do nosso retrato doentio – sim eu faço parte do mundo, e tudo que pulsa nele, deve conter fragmentos das minhas ações – de desfiar esses enovelados disparates sociais, consigo enxergar partículas de esperanças. Me recuso a desacreditar nas pessoas e em amanhãs melhores; e ainda escuto meus silêncios, considero a simplicidade na vida a nossa mais potente e transformadora atitude. Apesar dessa metáfora chamada tempo e das legiões que caminham dentro de nós, o consumo não me consome.

  • Canto da Boca

    Você domina bem as palavras. Portanto, resta acompanhar o raciocínio e aprender com o ritmos das frases. Acreditar na transformação é uma força.
    abs
    antonio

 

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