As múltiplas máscaras e as (des)aventuras da violência

 

Não é possível observar o cotidiano e deixar de ver os instantes comuns da violência. Ela se repete e segue construindo histórias de quem a adota e a propaga. Não se trata de um mito, mas é frequente ouvir narrativas que nos fazem desconfiar de certas sociabilidades. Há intenções de eliminar o outro ou sacudi-lo num lixo qualquer. Não é fácil decifrar porque somos animais sociais, ditos também racionais, no fluir de comportamentos agressivos e  competições renovadas. As notícias soltam versões que trazem estranhamentos. Será que o tempo histórico se move no retorno, na volta ao vivido com significações diferentes?

Há muitas controvérsias. Não vamos atiçá-las. O que incomoda é que a solidariedade e o diálogo não ganham espaço. As repetições assustam, pois há sempre o perigo de reproduzirmos barbáries. No entanto, não custa acrescentar que o discurso do vencedor procura disfarçá-las. Os significados são múltiplos. A violência não é, apenas, os sangrentos embates de ruas, o fortalecimento da repressão. Nunca esqueçamos que preconceitos se mantêm e eles criam privilégios. A intimidação gera violência sem necessidade de usar a força física.

Os tempos são outros, porém não anulemos as permanências. O sistema capitalista beneficia minorias, consolida riquezas e desigualdades. Não há revelações diferentes. Ele projeta estratégias, não abdica dos princípios vestidos com máscaras fabricadas por especialistas no cinismo. Longe da Revolução Industrial, a sociedade de consumo não cessa de seduzir e também aprisionar suas vítimas. As grandes corporações financeiras estendem poderes e cometem  violências sofisticadas. Entram no campo do simbólico, inventam o território das dívidas e das negociações. Quem perde? Quem ganha? Quem se mistura?

Nas manifestações nas ruas, a violência se torna visível e ocupa conversas e análises políticas. O conflito está estabelecido e alguns anunciam tolerância zero. Como acreditar na autonomia e apagar autoritarismos conhecidos? Há reivindicações que assinalam desmantelos políticos, governos descompromissados, animados em se organizarem para as próximas eleições. As disputas assanham as empresas de marketing que orientam candidatos e zelam, objetivamente, pelos seus clientes.Portanto, o campo da exploração é vasto e complexo. A violência se expande,  o capitalismo concentra riquezas e as pessoas vacilam na busca de princípios coletivos. A sociedade se fragmenta com profundidade. A democracia tem traços da utopia final, não se firma?Isso incomoda, desequilibra as referências. As formas de lutas se modificaram, porém  as organizações não conseguem se legitimar.

A  confusão desanima alguns e acelera medos. Que conteúdo tem a política numa sociedade de mercadorias soberanas? A velocidade dificulta a reflexão e desarruma a resistência. A velha questão de dividir para reinar não se afastou da história. A violência não mora, somente, na bala de borracha, ela está presente,até mesmo, nos espetáculos do lazer. Ela arquiteta costumes e lógicas que desenham enigmas dissolventes. Se não observarmos que a convivência cotidiana desloca julgamentos e transforma valores em nome do pragmatismo, a história caminhará tonta e as lamentações desfiam a cultura. Nem sempre, o fôlego existente ultrapassa os ressentimentos. Termina cercado de tensões e desconfianças.

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