Agnès:as narrativas, as imagens, os fragmentos

Narrar a vida é como compor um filme, uma música, um poema. Tudo se entrelaça, embora existam as distinções. Fragmentos que se aproximam em busca de sentido. É difícil fixá-lo, mas o perseguimos. Criticamos os mitos de origem, desconfiamos dos paraísos, desmontamos utopias. A imaginação não deixa de nos tentar. A objetividade favorece ao consenso. Ela não é, contudo, a redenção para firmar a clareza da vida e suas descobertas. Abrimos trilhas, sacudimos verdades, esticamos fios nos labirintos. A dúvida é permanente no meio da algumas certezas que nos acodem para que o vulcão não traga o incêndio do mundo.

Por isso, as narrativas se soltam e não são únicas e definitivas. As semelhanças existem e podem estimular solidariedades. A questão é observar que os sentidos variam. Costuram-se no inesperado. Não é à toa que o discurso do absurdo atrai, que Benjamin lamenta as mudanças nas relações de trabalho, que Nietzsche convoca Zaratustra para espalhar profecias. Quem deseja sossego não contempla a história, sente que o descanso não cabe nas aventuras da incompletude. Italo Calvino afirma que não existe linguagem sem engano. Isso nos leva a não esquecer o recomeço. As coisas e os sentimentos se perdem? Mas  até onde as ilusões e magia refazem os sentidos?

Agnès Varda bordou imagens sábias e inesquecíveis no seu último filme. Dançou com a memória, mostrou a pedagogia do afeto, celebrando o humano e a arte. A memória, com suas idas e vindas, constrói narrativas que procuram serenar ou atiçar os desencontros da vida. Não dá para compreender tudo, porém os fragmentos se articulam, trazem possibilidades, mascaram os perigosos trapézios que pedem peripécias, riscos. Memória e vida estão coladas, com interpretações múltiplas, para além das crenças e das ciências. Há, sempre, o lugar da invenção e da surpresa. Ele vence o cansaço, nos recorda o fôlego da transcendência.

A linguagem circula. Não possui um ritmo determinado, pois a aventura humana recusa sínteses desconexas e se desvia de pontos finais. A narrativa muda sua linguagen. No entanto, não podemos anunciar sua mudez. Surgem vocabulários e gramáticas diferentes e a tecnologia estende seu poder. Ela não despreza a linguagem, nem a memória. Aprecia a velocidade e provoca confusões. Não é a razão que administra, sozinha, os caminhos da cultura. Ela é um conceito, possui significados, mas seu império é, também, moradia de fragilidades. Visite as paisagens de Varda, para não renunciar as travessuras dos fragmentos.

Benjamin refletiu sobre suas circunstâncias, suas experiências. Foi um pescador de pérolas, com afirmou sua amiga Hannah Arendt. Nós temos outros tempos, somos assaltados por outros monopólios mesquinhos. A grana arrasta sensibilidades, desmonta rebeldias. Isso é não tudo. Não devemos nos afastar da simultaneidade. Ela traz o diálogo, evita que a subjetividade se desmanche,  se apavore. Não existem harmonias perenes, contudo a respiração não cessa enquantoa a vida se inquieta. Os fragmentos, os vestígios, as recordações abraçam a narrativa. A sinfonia inacabada da vida testemunha que a beleza não é traço do absoluto. Flutua na imaginação sem medo.

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