As neves do Kilimanjaro: a culpa e o inesperado

A arte traz uma sensibilidade que anima a vida e redefine desmantelos. Foge de padrões, coloca desafios, amplia a imaginação. Ela expressa sentimentos que se achavam escondidos, surpreende os conformistas, nos mostra a complexidade e beleza do mundo. Suas narrativas multiplicam interpretações, retomam significados, aparentemente, sepultados, individualizam questões. Tiram-nos de uma objetividade cansada de apatias e desconsolos. É importante não esquecer que os jogos do mercado não destruíram suas ousadias, nem desfizeram sua capacidade de dialogar, de desmanchar as apatias. O filme As neves do Kilimanjaro aprofunda questões cotidianas, nos remete para pensar os limites, visualizar alternativas, remontar dificuldades que pareciam pertencer às abstrações políticas.

Há mandamentos que se impõem. As religiões possuem forças nas suas crenças. Firmam morais e exigem obediência. No entanto, o mundo não se esgota nas transcendências ou nos medos divinos. Na política, também se abrem códigos de conduta, são celebradas verdades socais, utopias se espalham prometendo paraísos. A cultura busca preencher suas lacunas. Não é à toa que a religião e política se tocam, se estranham, se completam, se conflitam. Não dá para consagrar fragmentações permanentes. Crescem as populações, as técnicas, as dúvidas, mas ninguém vive sem referências. Tudo é muito escorregadio, porém é preciso caminhar, descobrir as saídas, criar asas como os pássaros.

O filme não se nega a configurar as dissonâncias, a enfrentar os contrapontos, nos colocar na tela formulando julgamentos. A crise econômica não atinge, apenas, propostas sindicais, estratégias de partidos, generalidades que recordam lutas do passado. Ela perturba sentimentos, pede renovação, desmonta gerações, desenhar solidões. A história não dispensa a transformação dos significados. Nem sempre o tamanho da generosidade é compreendido por gerações com convivências diferentes. Existem lugares onde as ambições se alargam e o pragmatismo desconfia da ética. Os grupos sociais têm suas cisões internas, o mundo capitalista é hábil na montagem da dominação.

A perplexidade estende-se, porque a velocidade não permite muita reflexão. As sociabilidades balançam-se diante de tradições. As modificações acontecem, sem tempo para entender a dimensão dos estragos e da mágoa. As famílias perdem suas intimidades e o individualismo narcísico ganha espaços. Estamos na sociedade do espetáculo e do consumo. Quem não obeserva que as relações afetivas se arrastam, no meio da turbulência, e  sucumbem ao império da culpa, não encontram respostas. É o desafio: correr com o tempo, sem deixar de lado o coletivo e pular as armadilhas da competição. Livrar-se do utilitarismo é o sinal da travessia.

As neves do Kilimanjaro não se restringe a soluções objetivas. A vida é deslocamento. Os mais jovens conhecem outros sentimentos como podem compreender mandamentos do passado ou ultrapassar limites que lhes pertencem? O filme é  fundamental, porque não se afasta das situações do cotidiano, mantendo conversa com o universal. Não é uma síntese das dificuldades da França. A crise econômica arranha todos. Ninguém afirma profecias otimistas e as frustrações estão percorrendo as culturas de forma inesperada. A arte, portanto, se apega ao que nos fragiliza, ao trágico que nos acompanha a sensibilidade não é muda, desarruma.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Amanda S. Oliveira disse:

    ótimo filme…

  • Amanda

    Gostei muito. Situações de vida que mostram limites.
    abs
    antonio

  • Jonas dos Santos disse:

    Professor, o senhor fala que: “As sociabilidades balançam-se diante de tradições”. Mas penso que são as tecnologias, os produtos da razão, etc., que balançam nossa sociabilidade. Ela nos separa. Talvez seja exagero meu, mas sinto também que nos traz de uma certa forma desleixo para com o que o outro sente.

    Hoje em dia refletir profundamente ficou praticamente impossível, o tempo parece correr como o Usain Bolt. E isso traz uma angústia. E pergunto: O que fazer?

    Obrigado pela indicação do filme, verei logo.
    Abraço!

  • Jonas

    É difícil indicar caminhos. Realmente, a pressa não nos permite mais reflexão. Talvez, ter mais paciência, tolerância, mas não deixar de ser crítico com o que nos torna egocêntrico. Somos animais sociais e não podemos cair num indiviualismo desmedido. Cada um tem sua escolhas, porém há comportamentos que anulam a solidariedade. Isso produz quebras na afetividade.
    abs
    anonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>