As ocupações: encontros e despedidas

Há, nos labirintos, saídas que se desviam do comum. A sociedade está vivendo uma crise de paradigmas. Tudo se debate. O que é verdade? Para que serve o conhecimento? Como escolher a melhor convivência familiar? A ética se foi e o negócio prevalece? O pragmatismo toma conta das cabeças e dos corações? Por onde andam os compromissos com as tradições? Quem se programa no discurso da servidão voluntária? Não faltariam perguntas, nem esquemas de idealização. O que mete medo é a desconfiança quase fatal. Há também formas sofisticadas de dominação, disfarces tecnológicos, especialistas em promover alucinações consumistas, traços de esquizofrenias atuantes. Parece que somos escravos de alguma coisa, mas a história segue, acende respostas.

As trilhas políticas atormentam. Lá estão Cunha, Renan, Trump, Malafaia e outras figuras. Difícil é acreditar no que dizem. Usufruem do poder com uma sede incomensurável. Surgem medos, anúncios de fascismos pós-modernos, religiões que transformam perdões em moedas circulantes. Ligue-se e observe. Não perca muito tempo.Seja agudo na crítica. Junte os fragmentos. Não renegue o que Hannah Arendt afirmou, nem esqueça Marcuse. A pulsão de morte solta-se, como um desejo demoníaco. Lembre-se também de Freud.Tente avaliar as loucuras mais íntimas. Viaje até a infância, sem delírios, porém com saudades. A experiência não é um pesadelo.

Muitos se sentem incomodados. Em 1968, os estudantes lançaram propostas, ocuparam instituições, pensavam em acabar com a burocracia. Houve repressão, antagonismos. Hoje,  frustrações invadem o cotidiano. Qual é saída do labirinto? Os estudantes fazem, hoje, um movimento, para muitos, inesperado. Estão nas escolas, nas universidades, buscam ruídos, protestos, enfrentamentos. Mostram-se cansados com as hierarquias. Acordam com  pesadelos do seu tempo. Compreender até onde vão, o que ficará dessa saga, inquieta e mobiliza. Ouço, me aproximo, analiso. Nem sempre me esclareço ou me esclarecem. Visualizo a complexidade, sem celebrar dogmas, nem fantasias. A  rebeldia não é vazia.

A  sociedade precisa de se reinventar. Temo a fragmentação, as lacunas constantes, os desenganos silenciosos. O presente acontece, não é simples ler suas sagas. Os confrontos constroem ambiguidades, subvertem afetos, armam emboscadas. No entanto, a apatia e a indiferença empalidecem e acovardam. As multidões curtem solidões estranhas. Por que arruinar as utopias? Por que não ultrapassar as paredes opressoras? Em 1968, se proclamava que o “Estado é cada um de nós”. Como se lançar num mundo que descontrole as hierarquias?  É preciso quebrar o descartável  sem deixar de ocupar as pontes por onde passeia a fraternidade.

O mundo nos recebe ou somos passageiros como as imagens de Narciso? Redefinir a política é fundamental. É uma ruptura com a dominação de uma minoria. Cuidar das relações afetivas, não se jogar nas seduções das glórias, não coisificar o humano são atitudes decisivas A política que difunde hostilização anônima pode ser danosa. Os adversários existem, a luta não é uma ilusão. Transformar comportamentos exige paciência. As horizontalidades desfazem hierarquias, mas há resistências e exageros. Dialogar é afirmação, nunca uma covardia. A história se compõe de tempos e imaginários. Não custa compreender o lugar do outro, sem minimizar as escolhas.

No final da reflexão, terminei lembrando-me de verso de uma música que Milton Nascimento canta. Diz:”Todo encontro é também despedida”. Encontrar-se com novas alternativas é jogar fora paradigmas envelhecidos. Não custa, porém, observar que a dialética entre o antigo e o moderno não é simples. Há sempre vestígios do passado, trocas, retornos. Por isso que a despedida do que foi vivido merece cuidado. Descongelar a história ajuda a autonomia, nos coloca diante de limitações, desadormece sonhos, aponta para futuros que pareciam perdidos. Agir e pensar alimentam o desejo de seguir adiante.

 

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