As “origens” do mundo: o caminho de Adão e Eva

Quem desconfia da história de Adão e Eva? Muita gente consegue manter firme a fantasia que houve um pecado original. Reivindica a tradição bíblica, evita discussão. É um dogma poderoso que se arrasta desafiando tempos e reflexões. O pecado não anda sem a culpa. Tudo isso nos acompanhando, justificando, intimidando ousadias. Não adianta afirmar que há tecnologias que questionam verdades, que a ciência atiça dúvidas e formula hipóteses revolucionárias. Adão e Eva possuem um lugar garantido, trazem a permanência de lembranças primordiais, asseguram o equilíbrio das pessoas que não se soltam das divindades e dos sonhos do juízo final. Há um apego à explicação das origens, como uma busca de sossego e sentido para vida.

A travessia dos mitos e das histórias é universal. Mudam os nomes, mas não as necessidades. Quem não se incomoda em especular, em desfazer  palavras para organizar as  inesperadas relações humanas? Temos inquietações incansáveis. Estão lá dentro do coração, arranhando a razão. Reduzir tudo a articulações claras, como um discurso do método perene e infalível, não satisfaz. Muitos tentaram. Há verdades que ultrapassam culturas e não se fixam em geografias determinadas. A complexidade dialoga com a  incompletude, portanto não há como esperar, sem suspenses, que haja uma serenidade que aquiete.

Por isso, a linearidade não dá conta da compreensão do mundo. Ela a torna pequena, sem imaginação, encerrada em regras. Eu adormeço  às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de abismo ( Eduardo Galeano). As metamorfoses marcam cada dia. Podem ser lentas, invisíveis. Mas há toques que só serão percebidos numa manhã que parecia desprovida de significados. De repente, uma luz ou um labirinto. As portas se trancam e as chaves perdem-se em águas turvas. Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas . Dispa-me, dispa-me (Galeano).

A nudez  ajuda a se livrar dos preconceitos e do medo do outro. A travessura de Adão e Eva serve como exemplo, não interessa se cultiva mentiras ou estigmatiza comportamentos. Nada mais sábio do que interrogar por quem foi inventada, a quem ela agrada ou seduz. A vida é a arte da simulação. Quem apertou o botão da origem? Será que a resposta nos deixaria acomodados, iluminado nossas interioridades , controlando nossas insônias. Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono das minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou vento que bate em minha cara.

Esse jogo de palavras de Galeano brinca com as astúcias do tempo, com os enganos das ordens. A navegação é, sempre, vacilante, como a de Ulisses. Se os mitos ganham um lugar de desprezo, a vida fica comum e se transforma numa forma estranha, totalmente desprovida de transgressões. Adão e Eva podem não ser símbolos de um pecado sufocante, mas de um desejo de  negar a validades dos limites. Eles existem para ser renovados, nunca para aprisionar. As interpretações do mundo comportam histórias e não uma versão única, cheia de peso. A culpa é um sinal de  aventura.

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5 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Gostei muito do texto(belo tema)
    Concordo bastante com o que foi dito no final(renovar e não aprisionar).Acho esse tema muito complexo,uma vez que engloba uma multiplicidade de opiniões e crenças.É um tema filosófico,espiritual e também científico,por isso que o considero muito complexo.Na minha opinião,a filosofia explica bastante essa nossa necessidade…Enfim,o interessante é essa possibilidade de cada um poder criar suas “verdades” e ,assim, saciar dúvidas,vazios,necessidades,desejos…

  • Amanda

    É difícil pensar sobre as possibilidades das origens. Muitas perguntas e fantasias. Mas é um tema que sempre provoca atenção.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    É verdade…sempre provoca muita atenção!
    Abs,
    Amanda.

  • Zélia Gominho disse:

    Oi, Antonio Paulo! Gostei do texto. Qual a obra de Galeano? Boa discussão em tempos de criacionismo X Darwin nas escolas. É preciso promover a reflexão sobre as explicações que temos a respeito da origem da humanidade. O mito de Adão e Eva seduz pela fé religiosa e, ao mesmo tempo, nos deixa tantas indagações pela racionalidade científica. E as questões filosóficas persistem: – quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
    Grande abraço, Zélia.

  • Zélia

    O Livro dos Abraços é a obra, mas há outras como Pernas Pro Ar que trazem reflexões interessantes. Galeano merece boas leituras.
    abs
    antonio

 

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