As perdas da vida se compõem nos ritmos dos tempos

Pensar a vida como um jogo de regras surpreendentes não é um desvario. Não há como medir os controles, nem planejar ações fixas. A marca da instabilidade não se afasta de cada instante. De onde ela vem, não sabemos. Criam-se crenças e as religiões buscam explicações para costurar as vestes dos mistérios. No entanto, há espaços abertos que fortalecem dúvidas incessantes. Se o estudo do inconsciente trouxe novas perspectivas, a questão das fantasias não deixa de assumir a provocação de debates. A teoria se transforma em referência, mas a vida segue, desafia quem adota verdades ditas indiscutíveis.

Há perdas que desfazem qualquer tentativa de equilíbrio. Os sentimentos se desmancham em lamentos quando observam a precariedade dos corpos, o fim anunciado pela incapacidade de reverter fragilidades. O vaivém atordoa. As variações no ritmo do tempo são condutoras, muitas vezes, da  permanência da melancolia, porém os esquecimentos empurram vontades paralisadas, recompõem os mapas de caminhos arruinados. Portanto, a acumulação de perdas, nem sempre é progressiva. No jogo da vida, há reviravoltas e reinvenções. A incompletude usa suas estratégias, pois sobreviver é preciso, mesmo que a navegação se faça com tempestade.

A velha afirmação que o tempo passa não está livre de ambiguidades. Impossível abandonar as perguntas e anular as representações das mais remotas tragédias. As culturas convivem com as diferenças. Não como envolvê-las em expectativas idênticas. As feridas aparecem, os esconderijos não são eternos. No mundo contemporâneo, a dificuldade é crescente. A aldeia global não cansa de proclamar proximidades, porém olhar cada objeto, cada desejo, já assanha a diversidade e a ameaça do confronto. Será que temos um destino articulado que teimamos em incorporar em nome da secularização da história? A modernidade atravessou séculos, com seus discursos científicos, mas não eliminou comportamentos que lembram bruxarias.

Risca-se da cartografia da história as linhas retas e as fronteiras definidas. O envelhecimento dos corpos nem sempre está acompanhado de experiências que consolem as desaventuras. Não há uma idade privilegiada. Cronos é poderoso e construtor de ardis. Por isso, a sociabilidade é necessária, mas nunca imóvel. Não é à toa que surgem as nostalgias e as imagens do passado subtraem os projetos do futuro. A metáfora da queda possui muitos significados. Os chamados livros sagrados revelam incertezas ou convicções que, ainda, perambulam pelo mundo. As palavras mudam, os poetas fundam mitos, mas os sonhos existem para minorar a dor do pesadelo.

As ficções mostram situações que as esperanças projetam. No entanto, há também juízos finais, sombrias disputas que visualizam o apocalipse. Cabe muita coisa na imaginação de cada tempo, misturando ambiguidades. Por isso, não há como expulsar a pluralidade para firmar o conforto de não se incomodar com a diversidade. A história não se alimenta sem narrativas. É contando as histórias que conseguimos observar as travessuras dos tempos. Se a constância das perdas ocupa a continuidade dos instantes, a melancolia ganha uma soberania ameaçadora. Ter cuidado com o mal-estar da civilização é uma forma dividir o governo do mundo para além da mesquinhez das disputas.

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5 Comments »

 
  • Elania disse:

    Esse texto nos deixa amedrontados. A pós-modernidade não tem muito sentido, nem explicação. Vivemos como animais conduzidos pelo tempo e o acaso. Dá muito medo refletir sobre ela, pois não encontramos nenhuma verdade, só interrogações.

  • Elania

    Os tempos históricos sempre tiveram seus impasses. Hoje, vivemos numa grande complexidade. Muita gente e tecnologia, mas os problemas continuam. O importante é construir escolhas e não perder os afetos. As restrições existirão, como existiram no passado. Portanto, não vamos fazer da pós-modernidade um bicho. Temos que ser críticos e tolerantes. Muitas coisas se repetem. Basta observar o passado com cuidado. A intenção não é criar medo, porém buscar elementos para viver os dramas, sabendo que eles se vão. Nada é para sempre. A reflexão ajuda a ultrapassar os impasses. Devemos ser companheiros da leveza e nem dos fantasmas. Portanto, não fique assustada. Todos temos saídas.
    abs
    antonio paulo
    antonio paulo

  • Elânia Nunes disse:

    É preciso muito auto-controle para não sermos conduzidos pelas inverdades da pós-modernidade. Para selecionarmos o que ela têm de bom, principalmente por que ela confunde quem realmente somos. Temos que nos encontrar.
    Abraços prof° Antônio Paulo.

  • Elânia disse:

    É preciso muito auto-controle para não sermos conduzidos pelas inverdades da pós-modernidade. Para selecionarmos o que ela têm de bom, principalmente por que ela confunde quem realmente somos. Temos que nos encontrar.
    Abraços prof° Antônio Paulo.

  • Elânia

    Estar atento é importante. Quem domina sempre procura criar malabarismos. Uma boa reflexão ajuda as escolhas mais coerentes com os nossos projetos.
    abs
    antonio

 

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