As peregrinações do nomadismo flutuante

Sou nômade. Moro no aeroporto. É lá que me torno um pouco sedentário. Leio no avião e cochilo nas poltronas vazias, nem percebo que o tempo passa. Não uso relógio e estou trancado em algum lugar do qual percebo, apenas, fragmentos. Não me ligo às notícias de tempestades. Gosto de voos sossegados. Tanto faz chegar ou partir. Os territórios não são fixos e nem se fala mais de fronteiras. A identidade é uma ilusão que Stuart Hall polemiza. Como é difícil conseguir um tapete mágico, consolo-me com as aventuras das máquinas pós- modernas e informatizadas. Nem sei se vivo cercado de dúvidas ou seguranças.

As tecnologias se sofisticam. Pensam mais que as populações massificadas. Breve, estaremos em outros planetas ou flutuando mais  próximo do azul do que do branco. Quero tocar as estrelas com os olhos. Não custa exercitar a imaginação. Viajar sem pagar imposto. Pior é travar o desejo e esconder-se num aquário sem peixes. Muitos animais estão se humanizando. Ganham neuroses e podem visitar os divãs dos psiquiatras. A esquizofrenia fervilha no mundo dos objetos descartáveis. Os casais optam por famílias que misturam cachorros, gatos e poucas crianças. As formas de afeto se multiplicam e a solidariedade do cosmo convive com os estranhamentos.

Tudo parece, então, se distribuir amplamente. No entanto, há superficialidade em excesso. Não faltam dramas que reproduzam trechos dos autores das novelas globalizadas. Vitrines, comprimidos de Lexotan e Prozac ajudam a disfarçar certas amarguras. É o ritmo da época do desmanche de tradições seculares, senhoras de amores quase perfeitos. Os deuses desistiram de planejar. Diante do sucesso do Rock in Rio, preferem adiar as profecias. É um desperdício anunciar o juízo final, quando os dogmas se fragilizaram e as religiões se envolvem com os meios de comunicação. É loucura estimular orações. Os gritos de desespero e ansiedades estão reservados aos ídolos terrenos.

Por isso, preservo o nomadismo. Entrar e sair, sem passar pela porta principal, ignorando as fechaduras e fazendo dos cofres um obra de arte. Lembre-se do urinol de Duchamp. Os aeroportos, cheios e barulhentos, sinalizam desencontros, conexões cruzadas com solidões desestimulantes. Mas existe algum lugar silencioso, ornamentado por quietudes ou sonhos em três dimensões? Os espaços de meditação também recebem a presença de ruídos. Não consolide, apenas, a memória das turbulências. Na lanchonete, o café expresso se mantém cheiroso e o pão de queijo, quente. O consumo distrai e promete o paraíso. Curta um pouco as mentiras, sem culpa.

Não se descuide, contudo, da sua mala. Nela reside a justificativa do estar-no-mundo, a última edição da República de Platão e um disco de tangos famosos de Carlos Gardel. Arrume um cadeado inoxidável, não exponha suas vestes mais íntimas. Qualquer dúvida consulte o Google, sem acanhamento, nem preconceito. O poema de Neruda acende seus desejos românticos  e um conto de Jorge Luís Borges traz a força do fantástico. Admita que o sono é efêmero e o perfume enjoado dos banheiros desestabiliza o nomadismo. Seja breve na  metafísica. Não abuse dos jogos de videogame e dos notebooks.

PS: A foto acima remete a uma das astúcias de Duchamp.

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