As permanências e os sentimentos sobrevivem

O movimento dos sentimentos é histórico. Ele possui seu lugar, seu tempo, suas circunstâncias. O afeto é permanente, mas não se apresenta naturalizado, com ritmos imutáveis. Na permanência há mudanças, relatividades. E não são poucas. O absoluto é um devaneio de quem deseja a onipotência. Ligue-se nas diferenças. Imagine a sociedade francesa da época de Napoleão e o que vivemos na atualidade. Existem toques comuns, não há negar, porém, as dissonâncias e os desencontros se espalham. O sentir tece a cultura, exige compromissos, sensibilidades. Os fôlegos se dispersam, não ficam presos a momentos definidos, trazem respirações desiguais. A história cultiva os vestígios, as relíquias, as ruínas e não apenas o novo, o descartável.

Insisto na importância de não perder de vista as permanências, porque os significados se transformam, mas não se desfazem, totalmente, das vinculações com o passado. Por isso, não custa evitar concepções que separam os tempos históricos, mergulhadas na obsessão pela descontinuidade. Eles se distinguem, não deixam de dialogar. Do presente viajo para o que foi vivido, mesmo que carregado de incertezas e de receios. As coletividades se movem, entram e saem dos labirintos, convivem com o ir e o vir dos desejos. A memória é fundamental. Sua parceria com a  história é indiscutível.

Na fabricação do cotidiano, reforçar as danças entre o lembrar e o esquecer ajuda a decifrar enigmas e encorajar ousadias. Afirmar a descontinuidade não é negar a permanência. O antigo e o moderno têm suas comunhões, podem se olhar e compreender as imagens dos corpos que os compõem. Os sentimentos costuram sociabilidades, bordam utopias, transcendem os limites de certas melancolias. Numa sociedade narcisista, os perigos do individualismo são sutis. Há quem os justifiquem, menospreze os lições solidariedade. Quando as crises se aprofundam os arrependimentos aparecem, muitas vezes, tardiamente.

Excluir o outro, anunciar a diluição das proximidades é desmontagem de relações importantes para cultura. Ela necessita de sustentação. Seus confrontos não são, sempre, sinais de falência. O narrar a história não deve dispensar as transgressões, nem negar as ordens. Uma sociedade não sobrevive sem regras, porém as rebeldias deslocam energias e removem preconceitos. As instabilidades acontecem, porque há desconfortos, vontade de correr para o futuro, delírios de fantasias ou apego aos paraísos do passado distante. Os sentimentos fogem das tipificações, porque surpreendem, se enredam em travessuras. As linhas retas não cabem no ofício do historiador, suas travessias possuem desenhos e magia que brincam com as expectativas programadas.

Observar o coletivo não é distanciar-se do que cada pessoa articula. Os entrelaçamentos da vida não permitem solidões que se perpetuem. Portanto, as memórias e as histórias se cruzam, buscam significados que não estacionam. A permanência envolve-se com limites, como também as nostalgias nem sempre representam recordações negativas. É um desafio estabelecer margens. As teorias provocam perplexidades, submergem, silenciam, porém se infiltram no ritmo do mundo. Não é absurdo imaginar uma conversa solta entre Tácito, Sócrates, Freud, Mia Couto, Copérnico…. O poeta Manoel de Barros não se engana quando diz: Com as palavras se podem multiplicar silêncios. E ruídos onde ficam?

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