As polêmicas de Lula e a democracia inquieta

Lula saiu da presidência com uma aprovação inusitada. Sua vaidade se fortaleceu. Com certeza, fez um governo que atraiu e causou mudanças na forma de relacionar-se com a população. Conta com sua facilidade de expressão e sua experiência de líder sindical histórico. Por estar numa posição de destaque, não deixa de ser olhado com críticas e invejas. Muitos querem derrubar seu prestígio, outros ressaltam que ele precisa aprimorar seu comportamento político. Não faltam opinões. Lula é  homem público. Não tem como se esconder. Nem quer. Expõe-se. Aprende com o diálogo que a democracia balança e mistura as diferenças.

As polêmicas não dão sossego. Lula gosta de respondê-las e empolgar a plateia. Não se recusa a fermentar o confronto. s Parece eguro, mas sabe que os escorregões existem. Perfeição é fantasia. A política é jogo imenso, com regras esquisitas ou fabricadas na surdina. É um equívoco avaliar que está tudo certo, porque as falhas se formam e se alargam, num país de tantas desigualdades e colonizações. É impossível governos e militâncias isentas de controvérsias. Lula conseguiu brilho, chocou certas tradições e envolveu-se com alianças inesperadas. Muitos condenam pactos com manipulações e  armadilhas nos discursos políticos. Pintam suspeitas.

Não há como cessar os boatos e as extravagâncias. Eles retornam. Muita gente move-se como senhora de certezas e destinos traçados. É um perigo achar que o sucesso é companheiro de todas as horas. Lula já provou sufocos, já foi preso, nas greves do ABCD, e  convive com o fantasma atuante do Mensalão. Não é ingênuo. Não há quem se sinta afastado das contradições sociais. Quem governa e milita está no fogo cerrado, sobretudo com o  crescimento da sociedade de consumo que transforma tudo em mercadoria. Portanto, a política é atingida, nunca foi  território neutro. Quem fica na vitrine usa manequins e máscaras, mesmo que busque promover críticas. O vaivém do pragamatismo traz novidades e disfarces contínuos. É a atmosfera de  uma época.

O exemplo de Lula lembra figuras emblemáticas, como Vargas e JK. As circunstâncias mudam, porém os deslocamentos  se complementam. Vargas viveu o autoritarismo, investiu na modernização, pensou nas relações com a classe trabalhadora. Manteve-se no poder, com apoio de forças heterogêneas, por um tempo expressivo. Juscelino enfrentou muitas intrigas políticas da famosa UDN e incrementou o ritmo do desenvolvimentismo. A Brasília parecia um sonho, contudo vingou. Hoje, a cidade está longe dos modelos imaginados e a miséria se expande na sua periferia. A memória acende os nomes de quem marcou o país.

Lula seguiu outros caminhos, porém guardou coisas do passado, não o renegou.Dilma, sua sucessora , carrega, tarefas pesadas. Seu nome é associado ao de Lula de maneira quase gratuita. Os tempos são outros, para ela e para o ex-presidente. O saudável deveria ser avistar os buracos que permanecem e destravar certas alianças, meramente, eleitorais. Lula não vai silenciar. Sua disposição não arrefeceu. Cada pronunciamento ou declaração desacomodará adversários. O cenário está montado. Na política, as sutilezas ganham versões múltiplas. Governar é mais do que reunir palavras. Lula e a imprensa sabem disso. A inquietude não é estranha a democracia. É uma travessia.

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