As rebeldias redefinem a cultura e a política

O capitalismo vive mais um desequilíbrio. Não é superficial. Toca forte no sistema financeiro e altera planos de muitas potências, ainda, poderosas. Todos lutam para se redimirem, evitando que a crise se estenda. Surgem as controvérsias, sobretudo na Europa. Há protestos contra Alemanha, Portugal encontra-se no fundo do poço, a França disfarça problemas. As sociedades se irritam, de forma mais visível, com os discursos mascarados dos governantes. A questão não é, apenas, assegurar salários e ter acesso aos bens de consumo. Há desacertos que roubam a alegria e escravizam comportamentos aos ritmos da burocracia.

Tudo lembra a multiplicidade. Não há um único caminho, nem tampouco as organizações políticas revelam firmeza nas suas estratégias. Há muita improvisação e inquietações inusitadas. Não se esperam objetividades de planos pensados, segundo ideologias defendidas por teóricos políticos. As reações fluem, revelando insatisfações. Se existem multidões que deliram com seus ídolos, há grupos que apontam dissonâncias e se sentem desconfortáveis.  Não basta denunciar corrupções. Há algo no modo de viver, do mundo contemporâneo, que perturba sentimentos e cria pesadelos. As críticas ao capitalismo vão além dos debates sobre a inflação e as manipulações do sistema de crédito.

A corrida pelo sucesso desgasta. Aumentam as doenças, os excessos preocupam os responsáveis pela saúde pública. Os prejuízos ameaçam orçamentos e surpreendem. A luta ecológica não se retraiu, nem tampouco o desejo de maior controle sobre o individualismo que rompe com os princípios mínimos da cidadania. Como a época é de quebra de tradições e de paradigmas, as respostas variam. A uniformidade nas soluções é uma fantasia. Habitam, na aldeia global, bilhões de pessoas e culturas com histórias e encontros mágicos. Os totalitarismos não cabem num mundo tão cheio de cores e que se renova rapidamente. É preciso respirar, sem anular a complexidade e os bordados dos diálogos entre os tempos.

Não se trata de especulações. Nos Estados Unidos, há reações localizadas e sugestões dos rebeldes para superar os impasses. São feitos acampamentos em praças. Esboçam-se ocupações de prédios públicos. Nova Iorque não está sossegada. Registros frequentes de fome e crescimento do desemprego influenciamas tensões. A exploração merece ser combatida, dizem muitos. Os partidos conseguem compreender o que acontece ou estão degradados por suas ambições mesquinhas ? A acumulação da riqueza não significa instantes de felicidade. Como explicar o uso desmedido de drogas e os medos que aquecem a venda de psicotrópicos? Quem tem coragem de pular o abismo?

No Chile, a luta contra o neoliberalismo não arrefeceu. Os estudantes exigem mudanças no arcaico sistema educacional. A repressão atua e a conversa se  se esvai. Na Grécia, o governo não ganha a confiança da população. Não se vê luz no fim do túnel. As avenidas transformaram-se em cenários de novas táticas políticas. Os gregos vivem a politica no cotidiano.No Brasil, as redes convocam passeatas. Há uma atmosfera de greve, pois nem tudo é consumo e encanto. Onde parecia fim de ditadura, também conflitos se acedem. No Egito, grupos religiosos se desentendem. Há dúvidas sobre a superação dos descontroles. As trilhas não são lineares. O futuro é desafio, imenso, misterioso, humano.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

9 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    O mal-estar é localizado, mas também geral. Vivemos um tempo singular e cheio de referências e experiências passadas. Sabemos tanto, mas não damos conta de tudo. Qual será o próximo movimento? Quem está jogando? A roda gira, é preciso se segurar em algo. Sem firmeza, sem convicção se é vítima fácil da ilusão.

  • Emanoel Cunha disse:

    A articulação das convivências sociais através do tempo teve que se adequar à modernidade com múltiplas problematizações e realizações, espreitando relações com as novas armadilhas que vieram carregadas em seu próprio surgimento, hoje ela não consegue por si mesma acompanhar todas as lamúrias tecnocratizadas e ideologias carregadas com a ideia de progresso.

    O capitalismo não sustenta todas as formas de organizações que regem a vida do homem em sociedade. No entanto a mesma, insiste em controlar todos as redes e relações da humanidade para com o sua história. É um desencanto o que ela proporciona para seus admiradores, mas ela por si só já está impregnada no cotidiano de cada indivíduo, isso de fato é inegável.

    O capitalismo adentrou nos espaços mais privados das relações humanas, ou seja, não há mais liberdade ou privacidade. Devemos ter cuidado com sua intromissão, seu poder é forte, a mesma invade e toma as culturas para si, dela se apoderando e controlando a custo da obtenção de lucros. Só isso a interresa, pois ela destitui as valorizações intrísecas das criação e construção das signifiçãções da importância de uma história.

    Os caminhos são longos, tortos e sinuosos. O sitema capitalista não vai desaparecer e nem tão pouco extinguir-se tão cedo. Será sua sede de acumulação de lucros e ideologias que cavará seu próprio poço de morte, nesta inclusa, a própria raça humana e o planeta terra. Necessecita-se controlar seus desejos e sistemas, pois somos nós mesmo que a suprimos e a colocamo-nas em nossas vidas, ou seja podemos segurar, ou pelo menos tentar apaguizá-la dos seus mandos e desmandos, porém sabemos quem a detém nas mãos são uma minoria. Mas como a maioria é o povo é preciso refletir e passar esse entendimento e conhecimento para o povo, desmassificando a ideologia que ainda impera na sociedade: “onde quem domina é quem tem mais poder”. Esse pensamento deve ser reconfigurado para nós como cidadãos contruímos e desenvolvermos nossas próprias histórias e caminhos.

    Abraços professor

  • marcio lucena disse:

    Antonio,

    Pululam conflitos mundo afora. Velhos e novos estandartes se agitam no horizonte. A roda da história range, volteia. O ‘gosto’ que fica no ‘olhar’ é de labirinto e de mistério. Tento enxergar o desenho da trama, mas uma neblina oculta as suas cores.
    História, histórias, neblinas!
    O desafio é não se render à “megera cartesiana”.

    abraço
    marcio lucena

  • DIÓGENES disse:

    Professor meu comentário hoje ficará restrito em uma dúvida na qual espero que o senhor possa esclarecer: Na passagem em que se fala de irritação das sociedades perante seus governantes; entendo que são essas mesmas que põem tais governantes lá, ora fica difícil muitas vezes saber quem tem a culpa: político X povo; vai ser uma partida sem fim, quem vencerá não sei o tempo dita os lances dessa batalha. Uma coisa tenho certeza a arena é o mundo pois o caos esta espalhado: Grécia, Chile, Alemanha, França, Estados Unidos, Brasil.
    Agora o conflito é outro e na própria sociedade; quem tem a razão os que se sentem desconfortáveis e reclamam querendo mais e mais, ou aqueles que aclamam seus ídolos e esses por sua vez se sentem como se tivesse feito algo? O verdadeiro embate está nas ruas quando saímos para reclamar ou se encontra individualmente em nossa consciência quando elegemos o representante de nosso povo?

  • Diógenes

    Os governantes não são os únicos responsáveis pelas contradições. Há desacertos que movem a população e também outros que mostram a apatia de muitos.
    abs
    antonio

  • Márcio

    Há muita neblina na história. O caminho é cheio de curvas e surpresas. Mas resta se inquietar e buscar alternativas.
    abs saudosos
    antonio

  • Zélia

    É muita busca. O mundo é cercado de dúvidas, mas é a crítica ajuda a naõ cair nos abismos.
    abs
    antonio

  • Valerio disse:

    Antônio,

    Sísifo tem a sua pedra e nós temos o futuro.
    Desafios “imensos e misteriosos” nos aguardam, sejamos audazes!

    até breve…

  • Valério

    É isso. O futuro depende da nossa ousadia.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>