As redes sociais: cenários,disputas,esconderijos

Cada época possui suas expressões. Não há cópia autêntica do que passou. Autenticidade é um conceito que não merece o respeito que tinha antes. Tudo foi muito mexido, refazendo referências, criando conformismo com a pouca profundidade em certas questões. A modernidade trouxe rupturas. É discutível se ela agradou aos que sonhavam com um mundo melhor e mais próximo dos anseios coletivos. Há quem não aprecie a modernidade e seus derivados. É sempre a multiplicidade de culturas e opiniões marcando a história. Hoje, com tanta tecnologia e disputas políticas, as sociedades vivem turbulências diárias. No entanto, o apocalipse não chega. As continuidades vestem-se com cores diferentes, porque o disfarce também constrói as relações. As redes sociais estão no meio dos debates. Não escapam das notícias dos jornais. Mostram que a necessidade de comunicação não se afastou dos grupos, mas ganhou sutilezas.

A conversa é grande. A exposição do eu assume propoporções nunca vistas. Parece que a vontade de estar no facebook é uma epidemia, uma forma de existir, de fixar prestígios. Daí, se aposta no seu poder de persuasão para lançar candidatos ou divulgar crenças religiosas. É lugar de comemorações de vitórias, de declaração de amor, de anúncio de suicídio. Tudo numa rapidez assombrosa, desafiando a memória. Cada um na sua página, curtindo suas fantasias e buscando compartilhamentos. Há um trabalho de espionagem e invenção. Muitos se negam a difundir sua imagem, outros mudam de nome para formular melhor  ironias, ou fulminar desafetos. Apesar dos mecanismos engenhosos, o face revela velhos hábitos, fofocas, descontroles, invejas.

O esconderijo funciona e diverte. Não é à toa que os admiradores gastam horas diante da telinha e ficam desgostosos quando há anúncio de pane na internet. Sentimentos de solidão não predominam. Há encontros, amizade reanimadas, formação de conjuntos musicais, articulação de intelectuais para lamentar os desgovernos. Portanto, o mundo, lá fora, se entrelaça com as estratégias ou passatempos do mundo de dentro. As formas e os recursos técnicos transformam-se. As disputas eleitorais permanecem criando espaços com mensagens que se perdem, muitas vezes, na rapidez do olhar. A novidade encanta. Enche-se de um poder que não é avaliado. A possibilidade de uma ação mais sofisticada demanda a formação de especialistas. A divisão do trabalho garante analistas sensíveis, lidos com entusiasmo Frases curtas, exaltação de modelos, magias pós-modernas. Há pessoas que não se ligam nas repetições. Celebram uma neutralidade inexistente.

É estimulante aproximar os tempos. Facilita a observação crítica, as singularidades apresentam-se e as permanências não são excluídas. Se na navegação conseguimos reconfigurar nossos segredos, como detetives espertos e misteriosos, o mundo não está longe e a nossa navegação nunca é isolada. Ela também compõe uma época. Segura modos de explorar e esclarecer. As redes sociais inovam, mas arrastam vestígios do passado. Ajudam na rebeldia, na montagem de concepções estéticas atraentes, porém não se livram dos cinismos e dos espelhos do mercado. A convivência estica especulações, prometem reviravoltas, aliviam desconsolos. Não custa ler romances de outros contextos, relatos de descobertas passadas. Há traços de união.

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8 Comments »

 
  • Zélia disse:

    Gostei muito. Disse tudo. Ou melhor, quase tudo, né mesmo?! rsrsrs!
    Grande abraço!

  • Zélia

    Grato. É muita coisa para falar.
    abs
    antonio paulo

  • Franz disse:

    Hoje faz 53 anos da morte de Billie Holiday; e comemora-se os 80 anos do nascimento do grande Quino.

  • Isak de Castro disse:

    Vejo na web o lugar onde mergulho, tentando achar compesações que o mundo “real” me nega, mais amigos, mais leitores, mais bonito, menos feio,menos timido, coisas que na vida real me falta… Mas têm momentos que paro e penso, 850 amigos que nem sabe quem eu sou, é existe algo errado nesse mudinho. Mundinho esse que muitos exaltão pelo poder de “perfeição” que ele mostra ter.

  • Isak

    É uma mundo que aparece ainda com muitas questões.
    abs
    antopnio

  • Franz

    Admiro ambos.
    abs
    antonio paulo

  • Elânia Nunes disse:

    O face é uma necessidade da sociedade contemporânea, exibicionista, coletivista e depressiva.

  • Elânia

    O face é uma espaço que inventamos. Possui o lado narcisista, porém podemos tentar colocá-lo com outros sinais. Não custa.
    abs
    antonio paulo

 

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