As referências e os rituais, as perdas e as velocidades

Os transportes do tempo não se fazem sem rituais. A sociedade deseja novidades, não dispensa referências. É um problema da complexa pós-modernidade. Há inquietações amplas, porque se busca limites num universo de formas estranhas e efêmeras. Teima-se em contar os dias, refazendo datas e calendários seculares, num oceano de memória saudosa das astúcias de Ulisses. A vida fica parecendo um grande e interminável ensaio. Há pouca distância entre a simulação e a verdade anuncia que a história está metida em agonias frequentes. Muita gente cercada de máquinas movidas por uma velocidade que dói e assusta. Daí, a perplexidade não adormecer nem no leito dos abismos.

O tempo desafia, nunca se apresentou homogêneo, nem anulou seus traços de soberania. Há teorias que tentam enquadrá-lo, porém as frustrações são incansáveis. Há quem não se conforme, mas a história é costurada no imediato com linhas fabricadas no fluir da respiração. Quem acredita no destino até consegue semear sossego. Observe o significado das palavras. Os dicionários são pequenos  para construir territórios definidos. Os significados mudam. Eles também especulam sobre seus destinos, não se afastam das profecias. As notícias são mercadorias. Alguém nega? O que isso representa para querem narra e contempla o vivido?

Os anos passam com seus pactos com os modos de produção. Há urgências despropositadas. Há ressacas que desamparam. Por isso, os rituais têm suas máscaras, mas insistem em permanecer. Não como zerar a experiência, embora muitos trabalhem para desfigurá-la. Existe sempre um ponto de partida, a possibilidade da volta, um cais que se fantasia de utopia. No entanto, as garantias são frágeis, como as dúvidas que multiplicam com os saberes. Nietzsche mergulhava em assombrações. E o disciplinado Kant e o ambicioso Hitler? É um exagero configurar a sociedade celebrando a nudez, desprezando suas vestes. Morar nas ambiguidades faz parte das travessias.

A gerência dos negócios econômicos supera afetos e inibe os desfavorecidos. As classificações sociais desmentem ideais iluministas. A instituição da história não se desgarra dos confrontos. O humano vive o inacabado sem desmontar o inconformismo. A política, a religião, a academia, a fama procuram escapar dos obstáculos. Periodizamos as fases da vida, talvez pensando em criar alegorias transcendentes e animadoras. O diálogo é o pão nosso de cada dia. Deixá-lo sucumbir é uma ameaça à sociabilidade. Não bastam palavras. É preciso construir sinais e arquiteturas, redesenhar geometrias e labirintos espelhados.

Os rituais rondam os instantes. Não se amedrontam com solidão. Repetir traz certa segurança e balança recordações. Se as festas caem num demolir de regras inesperadas, há quem acorde a memória e se lembre que os vulcões têm sonos e pesadelos. Portanto, as trilhas se enchem desejos, as culturas se globalizam na corda bamba e as crises amolecem a argila que nos moldou. Dizemos tudo escrevendo a caligrafia do absoluto. Não importa. O lamento maior é desconhecer a solidariedade e consolidar os compromissos do valor de troca. Olhar os fetiches, aproximar-se das ilusões, entender os exílios surpreendentes. A história é uma invenção social, mas é metamorfose de interioridades e de tergiversações.

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