As repetições ganham espaços e monotonias ?

A criatividade tem seus limites. Não está em toda parte. Há quem a negue e a conceba como coisa dos deuses. Nós, na incompletude comum, ficamos presos às imagens,sem ousadias. Muito pessimismo ou descaso com a cultura? Existem as repetições e a falta de ânimo para transgredir.Gosto de fazer uns testes. Correr certos riscos, sem gravidade. Assisti às Viagens de Gulliver, tentando me recordar do passado, da leitura do livro, das boas impressões registrada. Decepcionei-me. Não valeu o risco. A monotonia impera e o filme é daqueles simulacros sem brilho algum.

Isso não é tudo. Não custa ir adiante. Desistir e reafirmar o reino da apatia é cair na falência da cultura. As radicalidades devem vagar por medidas e não estabalecer ordens definitivas. A história continua e navego no navio de Ulisses. Resolvi revisitar a memória do futebol. Há muito que procurava um documentário. Chama-se Pelé eterno. Título, no mínimo desafiante. Ganhei o DVD de presente e me preparei para apreciá-lo. Sabia que era uma louvação ao craque, aos seus feitos e a sua majestade.

O que me interessava não era a sequência de apologias, mas, sim, a arte das jogadas. Vi junto com, meu filho, Marcelo. Um deslumbramento. Não parei de falar e exaltar a força das acrobacias do Rei. Força estética, pois a leveza compõe a sua dança em campo. Parece, às vezes, desenho animado. Pelé não se intimida com os adversários e vive da fantasia de cada jogada. Os gols deixam a perplexidade flutuar. Marcelo também se alegrava. Com seus quinze anos, desconhecia tanta invenção, bastante diferente da letargia do futebol de hoje. Pensei: quem disse que não há criatividade? Massificou-se mesmo o olhar e se  disciplinaram, em todas as rotas, as ações?

Convencido da minha tese, não sosseguei. Mergulhei nas páginas de um romance de Manuel Scorza. Saudades da sua escrita. Procurei seu livro  Tumba do Relâmpago e meu tapete mágico não poupou seu malabarismo. Havia criado uma versão para vida de Scorza, por isso não busquei mais suas obras. Não sei de onde saiu a ideia de que ele havia morrido num desastre de avião. Grande e saudável engano. Li seu livro, sem vacilações e me reencantei com suas palavras precisas e cristalinas. Poucos possuem a habilidade de Scorza. O mundo agradece a sua existência, seu compromisso de lutar contra a desigualdade e sua intimidade com o humano.

Não há razão para se traçarem  normas infalíveis e achar que a segurança vem da ordem. É melhor desfazer-se das costuras malfeitas e espalhar o charme que não está longe do mundo. As diferenças sobrevivem, mas a vontade de reconhecê-las. Os dribles de Pelé e a coragem de Scorza movimentam energias. Nada como respirar a atmosfera da suavidade e do coração fabuloso de Scherezade! Chico Buarque fez uma letra, uma das suas primeiras, onde afirma: Fica meu amor, quem sabe um dia, por descuido e poesia, você goste de ficar. Descuido e poesia, inquietude e voo. Será que a onipotência não se encontra na textura da argila?

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio
    Seu texto hoje tem algo de muito especial. Desconfio que quando o autor se apresenta como um dos personagens, principalmente ao lado do filhão, as palavras ganham mais força, inteireza, estética ternura.
    Rezende hoje, não só nos contou uma das suas histórias. Ele entrou inteiro no navio de Ulisses, com o charme de Antonio, as acrobacias de Pelé, o encantamento de Marcelo, as palavras de Scorza, a suavidade do coração de Scherezade, a música de Chico Buarque…
    Uma bela demonstração de que, ao refazer caminhos abrimos infinitas possibilidades de estabelecer outra relação com o passado. Assim, recuperarmos no presente os risos, os encantamentos, as admirações, a poesia, as energias, a vontade de se humanizar.
    Muito bonito, Antonio, percebermo-nos passageiros desta grande viagem, da qual “quem sabe um dia, por descuido ou poesia” saberemos ficar, saberemos ancorar?!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Visitar o cotidiano dá fôlego e mais soltura. Isso é bom para escrever.
    bjs
    antonio paulo

 

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