As sensibilidades e seus sertões particulares

As informações são tantas que fica difícil selecioná-las. O  que atrai? Há escolhas definidas, sem vacilo. Muitos procuram preços, liquidações ou se perdem nas letras minúsculas dos classificados. Lá organizam seus orçamentos e planejam suas compras, sem piscar os olhos. As idas dominicais às lojas famosas tornaram-se um divertimento. Não significam, necessariamente, gastos, mas um desfilar de desejos, com  observações variadas. Limpam os olhos, saturados das obrigações trabalhistas. Numa sociedade de mercadorias sedutoras, não há como fugir das vitrines e ser indiferente às ofertas cotidianas. É claro que os exageros ganham lugares e as euforias se alargam, com censuras míninas.

Cada um concentra-se nas suas formas preferidas. Formam-se grupos. Há excursões programadas aos locais de compras, como aos museus e às exposições de artistas famosos. São hábitos contemporâneos que fortalecem o complexo setor de serviços. Estamos muito longe do século XIX. As asas gigantescas das especulações não param de crescer. Pode ser uma contradição, mas, no final de semana, a agitação não some. Os feriados são raros. Os deuses pós-modernos não querem cavernas, nem cochilos. O sossego se desfaz e os malabarismos do consumo expandem sonhos e convivências oportunistas.

As leituras das notícias ficam restritas, em muitos casos, à soberania de anúncios tentadores que sabem navegar pelos mares do capitalismo. Há justificativas. As discussões políticas registram enfadonhas disputas de cargos ou transcrevem denúncias de corrupções consagradas. O descompromisso é frequente. O mundo termina se diluindo na sua multiplicidade. A palavra guerra não se cansa de assegurar sua permanência, construindo vocabulários onde os adjetivos estimulam conflitos e trapaças. A competência de especialistas é ressaltada, como, antigamente, os padres recomendavam os cultos a determinados santos. O autoritarismo apresenta-se com recomendações científicas que organizam o controle dos meios de comunicação.

Fatos e boatos pegam carona no burburinho das filas de ônibus, numa confusa relação com os  valores. Há uma paixão pelo imediato. No entanto existem outras veredas. O que assente justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. Guimarães Rosa traz outros cuidados, metáforas que desenham sublimes cartografias. No seus escritos, você se encontra com sertões encantados, com ritmos que tocam no coração, com sensibilidade de imagens surpreendentes. A palavra é um voo.

Portanto, por que embarcar na massificação e saltar do navio de Ulisses? As rotas geometricamente definidas não levam ao desengano disfarçado, em delírios vazios? A diversidade do humano é vestígio constante de fascínio e não de fastio. Há repetições seculares, mas intenções que mudam formas reconfiguradas.Os cuidados podem trazer divagações e remontar  leituras mornas. Não esqueçam dos estranhamentos ou da visita a outros saberes. A astronomia encontrou planetas que flutuam livre na Via Láctea. Não são poeiras. Têm a massa de Júpiter. Pensem no cosmos e suas solidões ou na possibilidade que outros seres morem próximos de nós. As informações não são apenas fotografias das máquinas de lavar ou da TVs digitais. Desmonte-se.

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5 Comments »

 
  • Flávia disse:

    Antonio,
    Será que a gente consegue se desmontar, a cada dia?
    E o tanto que precisamos?…
    Ou “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?”
    ???
    Quando pensamos que alguns hábitos parecem estar introjetados, “existem outras veredas”, outros mares, outras embarcações…
    E o aparente sossego se desfaz…
    A palavra revela o fascínio humano, nos retira do delírio vazio e nos faz pensar, expandir sonhos, voar, “saltar do navio”, sair da água estagnada, ousar mudar hábitos!
    É preciso deixar a sensibilidade entrar em nossas vidas e refazer os nossos sertões particulares!!!
    !!!
    Instigante e belo o seu texto, Antonio.
    Lindo de ouvir e refletir!!!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A vida tem surpresa e o inesperado é um campo de desmontagem. Mas vamos juntando as experiências e afinando os afetos.
    bjs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    O bombardeio diário de informações é intenso. Com cautela, pode-se colher o trigo no meio do joio.

  • Gleidson

    Ainda bem que temos a possibilidade da escolha.
    abs
    antonio paulo

  • Yves disse:

    Diante do seu ser coisificado, as pessoas têm a necessidade de se humanizar com os multiplos objetos de consumo, é a política do “ser e não ser”: existe a necessidade do reconhecimento social pelos objetos que possuímos.

 

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