As tensões: “Narciso acha feio o que não é espelho.”

Quando a desconfiança toma conta do cotidiano e as pessoas começam a preencher seus vazios afetivos com a luta política, alguma coisa está perturbando. A política é importante, envolve a vida, se confunde com crenças religiosas, consegue esconder desacertos e espalhar incompletudes. No mundo invadido pelo desamparo, a complexidade se assanha. Análises superficiais ganham urgência. Há quem goste de provocar, de procura inimigos, como se procura um abraço numa noite de frio e desamor. A verdade se fragmenta e a história se mistura com sentimentos que demostram raivas e dificuldade de registrar a tão famosa democracia. As palavras dançam como morcegos em quartos escuros. A ironia protege a delicadeza manipulada de alguns.

O Brasil convive com rupturas afetivas frequentes. Não é uma questão de aconchego. É que uns estão com Dilma, Lula, Chico e outros estão com Cunha, Temer, Mendonça. São escolhas. Apagá-las ou aprisioná-las é opressão. O que mete medo é o fanatismo. Criam-se mitos que promovem justiças e parecem ser assessorados por anjos. Existem muitos escorregões e quase ninguém se move para o diálogo. Tudo se resume ao desengano com antigos profetas? Este estímulo traz desavença, espalha a atmosfera de violência. Temos que pensar a cor da roupa e muitos se aproveitam da rede para distribuir desencantos pessoais. Os atritos se arquitetam, ocupam os vazios e balançam os tédio. O riso não surge na tela do computador, satisfaz quem zomba ou se considera esperto

Não são, apenas, as teorias políticas que estão em jogo. Há reflexão, porém uma escassez imensa de profundidade e uma agonia que faz a vida ser vivida no gabinete  de Moro, nos corredores do Congresso Nacional, na rampa do Planalto. Já afirmei, faz tempo, minha posição. Vejo tensões que não cessam. Não acredito na solução dada ou nas estratégias montadas com muita conspiração. A complicação deixa dúvidas, porém voar para outro planeta não é possível. Política não é religião, inspira ideias, tumultua sossegos e guarda segredos demolidores. O que vai acontecer? Temer tem fôlego ou armou um séquito de bajulação?A sociedade tem uma configuração que puxa a velocidade. Há a soberania do descartável, pois a ânsia de possuir mercadorias não é incomum.Ela se transfere ao ego de cada um.

Olhar o outro é interpretar outra vida. Existem invejas, delírios, ambições, poderes. Não acredito numa sociedade que extermine as diferenças, nem que o saber acadêmico é uma garantia de saúde mental. Nestes momentos, poucos sóbrios, há embriaguez que puxa a rebeldia ou o desejo de não ser juiz de si mesmo. A capa preta, a excelência, a formalidade concretizam, para muitos, a rota de justiça. Entrega-se a responsabilidade para os grandes teóricos da lei. Tudo se passa no balanço da incerteza. A sociedade seleciona representantes e foge da autonomia. O mais próximo veste-se de vítima. Os desmandos distraem e as pessoas ocupam o tempo e a solidão. Disfarçam-se. Caetano diz, SAMPA, que ” Narciso acha feio o que não é espelho. ” Quem assume que não basta contar os votos e bater as panelas?

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1 Comment »

 
  • Nogueira Netto disse:

    Essa esquerda reformista
    Trouxe conquistas gigantes
    Porém colocou o preço
    Na conta dos militantes
    Muitos podem dar a prova
    Em vez de uma esquerda nova
    Voltará ao que foi antes

    (Nogueira Netto)

 

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