As tensões trabalhistas e as euforias mascaradas

 

            

Houve  grande euforia com os últimos anos da economia brasileira. Conseguiu-se escapar dos prejuízos maiores da crise internacional do capitalismo. Lula soube exaltar esse feito, como ninguém. O discurso desenvolvimentista voltou com força, apagando dificuldades e prometendo que uma potência mundial surgia sem atropelos. Olhou-se o positivo, fixou-se um futuro auspicioso, esquecendo-se de medir o tamanho das contradições que assustam a sociedade brasileiro. O consumismo foi incentivado,as dívidas pessoais cresceram e muita gente se divertiu com os novos produtos. Parecia uma festa sem fim que garantia ascensão aos privilégios, carro no portão da casa e cartões de crédito no bolso.

É claro que ninguém quer a manutenção da miséria. Ela traz violência e sofrimento. Desfigura, desqualifica, corrompe. No entanto, há limites nos regimes econômicos que necessitam ser lembrados. Potências, do passado, passam, atualmente, por situações de sufoco. A instabilidade é marca do capitalismo. A  Alemanha sofreu com as duas guerras. A Inglaterra era o maior império do mundo. Os Estados Unidos encontram-se remoendo problemas profundos. O Brasil não poderia ser exceção. Está buscando alternativas, ganhou espaços e respeito, mas não se firmou como cantam os otimistas de plantão.

A proximidade e as exigências das obras para as Olimpíadas e a Copa do Mundo suscitam polêmicas. Muito dinheiro, em movimento, inquieta. Como fiscalizar seu bom uso? Os exemplos não são animadores, os valores exorbitantes deixam desconfianças. A cerimônia do sorteio, no sábado, acendeu a luz vermelha. Há comportamentos estranhos, luta pelo poder, antipatias reveladas. O suspense move críticas. É importante que elas não cessem, para que se tenha transparência. Montam-se esquemas gigantescos, em pactos privados, envolvendo o gasto do dinheiro público. A insegurança não existe à toa, pois os senhores da grana sabem manipular bem suas vontades. Portanto, pelos menos, fortalecer os órgãos públicos, sem fugir da dignidade republicana tão ressaltada.

Há outras questões que assombram. O PAC encontra dificuldades para se manter. Depois da festa do consumo, as coisas se complicaram. Os impasses para assegurar os acordos são muitos. Falta mão-de-obra especializada. As condições de vida dos trabalhadores são precárias. Muita gente junta, de regiões diferentes, sem mobilidade, sufocada por extensas jornadas de trabalho. Sobram insatisfações e as greves pipocam, independentes de sindicatos. Conflitos que ameaçam a continuidade dos planos do governo e cortam os discursos ilusórios.

Percebe-se que há preocupação. O jogo não mostra suas regras, mas basta um olhar mais agudo e descobrem-se muitos contrapontos. A economia vive redefinições. Isso não é novidade. Administrar crises abala relações de poder, reinventa práticas e desloca valores éticos. Sempre insisto que a questão não é, apenas, relacionada com a acumulação de bens materiais e a sua distribuição. A complexidade conduz a reflexões que não se restringem a cálculos inflacionários. Dados recentes anunciam que a depressão é, praticamente, uma epidemia. Deslumbrar-se com as vitrines não resolve o equilíbrio do coração. Ele nunca é absoluto. O entusiasmo pela tecnologia nos atrai. Contudo, mascarar os sentimentos não evita abismos.  O fascínio pela propriedade das coisas existe. Ele não está isolado das amarguras afetivas.

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4 Comments »

 
  • Rita sampaio disse:

    Antonio, gostei. Acho que devemos manter a lucidez e a criticidade.

  • Rita

    É isso. As armadilhas são muitas.
    abs
    antonio paulo

  • Julio Cesar Silva disse:

    Os Leviatãs que ajudamos a criar e que, diariamente, alimentamos. Há o desconserto nas proposições públicas, e o envolvimento do privado nesta relação é evidente. Suspeito que não somo uma república, nem mesmo uma democracia, nem mesmo um povo; somos seres díspares, insistindo em manter as aparências daquilo que a Modernidade colocou: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Todo discurso é belo no seu enredo, mas muitas vezes pouco eficiente em sua praxis.

  • Júlio

    Falta mesmo uma conexão entre o que fala e o que se faza.São as armadilhas que enganam.
    abs
    antonio

 

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