Freud, traduções do mundo, leituras inacabadas

Quem não narra sua história está escondido do mundo. Talvez, tenha medo de revelações e fuja de encontros. Cada um se projeta no meio das dúvidas, mas a conversa é fundamental para compreender os desacertos e formular outras rotas. As ambições circulam, a sociedade corre atrás das novidades, há buscas que são permanentes. Narrando as histórias continuamos navegando no tempo, reconhecendo pertencimentos e refazendo valores. Sabemos que as imobilidades atrapalham. Contar a vida ajuda a decifrar enigmas, porém há sempre algo que não se concluiu e os riscos inesperados. Mesmo inconformados traçamos possíveis saídas para as interrogações cotidianas.

O mundo pede traduções. Os enganos aparecem , somos exagerados ou alimentamos covardias. Nem tudo tem visibilidade. As leituras freudianas nos alertaram para muitas coisas. O desejo vai e vem com desenhos esquisitos e surpresas. Não construímos controles completos, os caminhos possuem curvas e abismos. No entanto, precisamos formular gramáticas e geometrias. As imprecisões assustam, porque as assombrações e as bruxas não cedem seus lugares. Há quem não acredite em fantasias, prefiram o concreto, mergulhem nas objetividades. E o inconsciente não existe, é apenas um delírio dos psicanalistas? As realidades dominam  o querer e fixam as memórias?

A minha leitura do mundo assanha inquietudes. Sei que as utopias necessitam de fôlego. Se o coletivo não criar  rebeldias, estaremos perdidos na lógica capitalista. Tudo é acumular, consumir, financiar, competir? Esses verbos ocupam lugares importantes nas decisões públicas e na comemoração dos individualismos poderosos. Não vivemos num totalitarismo, contudo não esqueçamos que as tecnologias nos cercam. Ficamos embriagados pelo feitiço das máquinas. Marcuse discutia sobre as opressões de uma sociedade unidimensional. Penso que ela tem se fortalecido com uma sutileza espantosa. Os rebeldes de 1968 já adivinhavam o crescimento desmesurado da burocracia. Os meios de comunicação sufocam, muitas vezes, com repetições vazias.

A mesmice é visível, mas não custa multiplicar outras leituras. Os jornais estão repletos de notícias que desanimam. A violência não adormece, renova seu poder de fogo. Há outros olhares,  manifestações que acordam sonhos. Ninguém está ausente da possibilidade do fracasso. Isso não significa paralisia, depressões incontornáveis. É permitido repensar a política. Há cenários de insatisfações no mundo globalizado. As mentiras da  não conseguem calar muita gente.  Se a concentração de riquezas firma-se, as lutas dos ex-colonizados mostram que os problemas da Europa não se resumem às contradições econômicas.

Os habitantes das cidades criticam planejamentos elitistas. Os moradores de ruas retratam que a situação ultrapassa limites e exigem ousadias. Não dá para marginalizar as maiorias. As brechas se apresentam.Os políticos profissionais não conseguem superações, entusiasmados pelos cargos e envolvidos pela inveja. Os contrastes persistem. O pão e o circo desmontam resistências, porém vacilam na hipocrisia. Freud construiu  interpretações das relações humanas que, ainda, desmancham tradições. O tempo passa e as leituras do mundo não deixam de ser feitas. Para além de Freud, já existem hermenêuticas do inacabado. Não faltam teorias, nem tampouco desejo de atiçar  comportamentos e vestir a nudez radical de algumas frustrações.

 

 

 

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