As travessuras de João, as travessias do tempo

                                                                                                                                                          

Há livros permanentes, estendidos no território do paraíso. Fogem às marcas do tempo. Viajam em tapetes mágicos e comungam das multiplicidades do cosmo. João Guimarães Rosa, mineiro, nasceu em 1908, quando se falava do modernismo, o cinema trilhava incertezas, a psicanálise mostrava lados da complexidade humana. Morreu, em 1967, quando os governos militares silenciavam, com violência, seus adversários. Viveu um espaço da história, pontuado por dissonâncias: a Revolução Russa de 1917, o fascismo de Mussolini, as propostas interdisciplinares da Escola dos Annales, a sede de poder de Getúlio Vargas, as duas grandes guerras mundiais, as aventuras imaginárias dos surrealistas, os toques musicais da bossa nova …

Uma vitrine ampla de um século que consolidou o capitalismo e firmou o crescimento militar dos Estados Unidos. A obra de João é fabulosa, seu Grande Sertão: Veredas, inesquecível e vasto como um coração de arcanjo. Estou, sempre, voltando aos seus escritos, tentando escutá-los e abraçar a sabedoria. Nada de querer interpretações definitivas. Os significados estão abertos, as leituras não cessam de transcender a mesquinhez imediata. Há, sempre, o que contar, sem classificar testemunhas, nem cercar narrativas.

Impressionei-me com o início de Grande Sertão. Não me cansava. Achava inusitado o desenho formado pelas primeiras palavras. Perplexo e perdido, mas fascinado. Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo córrego. Por meu acerto  (Rosa). Absorvia-me a danças das palavras. Demorei a sair dos ritmos. Ia e voltava: Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o quer aprova, o senhor não sabe: pão ou pães, é questão de  opiniães… O sertão está em toda parte (Rosa). A narrativa forte torna-se uma sinfonia, com intervalos. O autor nos chama para regê-la, nos coloca na conversa, sagra os instrumentos, nos atira no turbilhão, pois Viver é negócio muito perigoso (Rosa).

Não faltam reflexões singulares, todas com densidade poética. Trata-se de uma metafísica desafiante, pois João mergulha nos fundamentos, é passageiro ativo do barco de Ulisses. Não interessa a determinação do lugar, tudo se toca, o humano se balança e se reencontra. Fechar o mundo em gavetas é desfazê-lo das  surpresas. Melhor é deixá-lo vadio, longe dos manuais cartesianos. Para que serve uma cartografia única, se o vaivém movimenta cada respiração e espinha cada corpo?

Tudo é ou não é… Quase todo mais grave  o criminoso feroz, sempre é bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seu amigos! Sei desses. Só que tem os depois- e Deus junto. Vi muitas nuvens (Rosa). Se a diversidade mistura pecado com inocência fica difícil criar o julgamento. O apocalipse não é um escândalo diante das  travessias que deslocam o tempo? Grande Sertão produz um confronto radical entre o sagrado e o profano, desfia a dualidade como artesão encantado. Viver é muito perigoso; e  não é não. Nem sei explicar estas coisas. O sentir é do setente, mas outro é do sentidor(Rosa). A magia da narrativa está para além da verdade. Não fique na estreiteza das medidas, mas na gangorra da travessura..

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Adoro as obras de Guimarães Rosa…
    Ele sabe bem realçar os conflitos que o humano passa diante de situações que ele não ousa questionar sobre as respostas que estão à sua forma de conhecer as variantes do sofrimento e alegrias que esmiúçam o humano. Sua abordagem faz-no enxergar um mundo diferenciado onde os confundidos se perdem por suas desilusões e se encontram em suas construções históricas.

    Abr

  • Emanoel

    Guimarães é um escritor que traz bons diálogos com o fazer histórico. Merece muita leitura, pois poucos conseguem expressar a experiência humano como ele nos textos mágicos que escreve.
    abs
    antonio

 

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