As travessuras de Neymar: a brincadeira tem limites?

Brincar é humano. Cria, distrai, sensibiliza. Nem todos, porém, suportam certos tons das brincadeiras. Alguns investem, na seriedade, como caminho da aceitação social. Admitem que as gozações revelam comportamentos de vadio. Como dizem, em cada cabeça uma sentença.A vida estende-se por muitos espaços, não vamos comprimi-la em quartos estreitos e úmidos.

Na cultura, ordem e transgressão se conflitam. Podem inverter-se, deixando as pessoas confusas. Na contemporaneidade, é difícil assumir valores ou validar éticas. Muito consumo, brilhos incomensuráveis, produtos de todas as cores. Nem tudo é para todos. A grana circula, mantendo desigualdades e estimulando fantasias. Daí, as violências mal explicadas e os governos cheios de programas de inclusão social.

Não dá para simplificar. A complexidade é grande. A virtualidade existe e o afeto se mascara. Não é possível conter a perplexidade ou ser o sábio de todas as verdades. Por isso, brincar ajuda. Ser rebelde não  é o fim da ordem. Sem mudanças, a história não teria nem começo. Imaginem Adão e Eva respeitando todas as regras do paraíso! Muito peso, para pouco desejo.

Neymar está na mídia. O seu jeito traz polêmicas. É ídolo, joga com leveza e diz coisas que ferem. Os protestos são comuns aos seus modos de enfrentar a sua carreira. Ficou no Santos. Ganhou saudações de toda parte. Crônicas exaltaram sua escolha. Serviu de exemplo. As páginas esportivas estamparam sua figura, como um rei. Seu ar de garoto não desapareceu. Pinta o sete, com muita soltura.

Dribla com rapidez. Faz gols com arte. Debocha, sem perceber o outro. Carece de entender os limites. Não é a sua capacidade de invenção que o condena. O que lhe assanha: a ausência de uma formação ética  mais apurada ou  a imaturidade diante das questões que transformam sua vida? O hard incomoda o soft? Neymar não é anjo, nem demônio.

Uma dose de conversa faz bem. A responsabilidade não é uma dádiva. Entra na educação como um cristal portentoso. Recriminar é uma alternativa. Fabricar sentimentos de culpa é uma saída secular  para assegurar antigas ordens. A religião, a política, o esporte têm suas disciplinas, seus mandamentos, suas tradições. 

O capitalismo morde e sopra. Exige docilidade no trabalho e agressividade nas compras. Cartões de crédito agilizam emoções e prometem salvar fossas perenes. Há muita magia, numa lógica que se configura como racional e objetiva. O sucesso é uma palavra encantadora.Seduz a maioria. Neymar não foge do modelo.

Na sua plenitude sonhada, a arte cultiva trilhas sinuosas, mas não humilha os que se negam a compreendê-la. Talvez, o jogador não se situe nessas questões. Não é necessário ser tão metafísico. Aprende-se com os gestos, com a solidariedade, com o toque da afeição.

 Neymar está fascinado por algumas coisas que  ameaçam estragar seu vir-a-ser na vida. Arrisca-se, em nome da vaidade de superfície obscura. Nada de crucificá-lo. Não custa, porém, alertar e  observar o tamanho da  mágoa de quem se julga desrespeitado. Descontrole, em excesso, é porta aberta para quem ousa, apenas, centrando-se no seu próprio bem. O abismo não é uma ficção.

 

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2 Comments »

 
  • gleyce da paz disse:

    Entre o dilema de ir para europa e ficar no Brasil, o menino astro decidi: permanece nos campos que o consagraram. Contudo, fascinado pela fama se deixa levar…Será falta de uma educação sólida? ou apenas o desfrute da fortuda adquirida a pouco tempo? Questões que estão muito além das quatro linhas.

    Belissimo texto…
    gleyce da paz

  • Gleyce

    É difícil formar eticamente as pessoas. O futebol podia ajudar nesse caminho, mas os desequilíbrios são muitos. As confusões dos interesses criam descontroles. A grana termina imperando.
    abs -grato
    antonio paulo

 

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