As trilhas de Dilma e as variações da política

Dilma mantém as expectativas. Suas investidas na chamada faxina geral deram certo. Sua popularidade não oscilou. Ganhou mais entusiasmos de alguns, mas perdeu pontos em outras regiões. No entanto, nada de assustador que quebrasse o ritmo. Consegue destilar bem as ambiguidades que as sombras do PT e de Lula colocam. A sociedade cansou das corrupções. Reforça as denúncias. Critica os políticos oportunistas. Não há aquela luta de antes. Tudo se faz dentro das questões da época, com suas fugas e enfrentamentos. Mesmo as greves devem ser repensadas para obter mais êxito. O tempo demanda outros comandos, pois o pragmatismo contamina todos.

Não se destacam disputas enraizadas em vinganças partidárias. As palavras de ordem são outras, diferem dos anos 1960. Mudam os sujeitos sociais e os projetos. A corrida é incessante. Fala-se com objetividade, definindo candidatos e assegurando cargos. As ideologias não repercutem como estampidos da luta de classes. Há agrupamentos de políticos que, no passado, estavam distantes. Sarney não desapareceu, Collor firma sua presença, Tiririca protesta contra os erros na Educação, Marta quer a prefeitura de São Paulo. Os sonhos se multiplicam, mascarando confrontos pessoais. Portanto, a carência de reviravoltas é grande. Cada um fertilizando territórios, sem discursos profundos e com ambições desmesuradas.

Dilma busca se equilibrar. Sente que não pode governar sem um marca pessoal, consagrada na popularidade e no combate aos males da república. Não vai se livrar, facilmente, do que ficou. Hoje, Lula vive numa atmosfera solta, mas não se descuida do seu prestígio. As especulações não param. Ele viaja, recebe títulos e acusações. Seus adversários não se afastam do debate. Sempre profetizam a sua volta, incomodam-se com as ligações do antigo sindicalista com empresários poderosos. Para onde Lula aponta seu futuro e o que fará com tanta fama? Dilma convive, com tudo isso, exercitando a discrição e evitando as fofocas.

O Brasil passa por abalos com o agravamento da crise econômica. Seus problemas estão, no entanto, relacionados com as escolhas políticas. O governo precisa ser mais claro nos seus investimentos. As intrigas políticas impedem mudanças nas estruturas sociais. Não dá para exaltar euforias quantitativas. Há cinismos que esvaziam a cidadania. As cidades do Rio de Janeiro, atingidas pelas cheias, continuam com dificuldades de superar os traumas. Há desvios de verbas e a população desconfia dos seus administradores. É incrível. Condições de vida precárias arrastam insatisfações e desfiguram esperanças. Não há como negá-las.

Dilma não pode vacilar nas suas atitudes contra as corrupções, contudo é fundamental que aja, concretizando obras que estão esquecidas. A política é inquieta, porque não despreza os disfarces. A transparência é proclamada, enaltecida, porém os silêncios não deixam que os esclarecimentos desfaçam as suspeitas. A corda nunca deixa de estar bamba e o circo anima o picadeiro dos malabaristas. As certezas não costumam fincar modelos. A relação do discurso com a prática garante vitrines mais ousadas e simpatias mais declaradas. Confessar que o trabalho é imenso não é um erro. Assinala que a vida política se move não estranhando os desejos da coletividade.

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8 Comments »

 
  • Angélica de Paula disse:

    Mais do que provar a força do poder feminino e honrar essa posição, como vem fazendo, Dilma tem que se fazer presente mostrando que não é somente um paliativo até Lula voltar a dar suas caras em Brasília. Seu maior desafio é construir em 4 anos um governo próprio, tendo a sua sombra um ex-governante cuja popularidade parece funcionar como a maior oposição ao seu governo.

  • Angélica

    Se Dilma mantiver a dedicação e não vacilar podemos ter um bom governo. Quem sabe?
    abs
    antonio

  • Anderson Carlos disse:

    Para mim, a presidenta Dilma tem como maior desafio o de conseguir continuar com o apoio dos partidos aliados, principalmente aqueles que estão em ascensão como, por exemplo, o PSB que, aos poucos está recuperando espaços principalmente em nosso estado. Porém, esta nova onda de criações de partidos políticos que assolam a nossa política assusta. Estas novas siglas geralmente possuem ideologias totalmente relativistas, onde não sabemos “quem é quem”. Em suma, estes novos partidos apesar de possuírem alguns nomes consideráveis, não se posicionam de maneira veemente para nenhum lado. Assim, é sempre algo perigoso para quem se encontra no poder lidar com grupos que não demonstram segurança de apoio algum, apenas estão naquele ou em outro momento de um determinado lado. Isso é, quando estes não estão de lado algum.

  • Anderson

    Segurar as alianças é uma arte política. Muita confusão de ideias e interesses.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    Na medida em que Dilma manejar e planejar com desenvoltura os interesses que permeiam suas posições políticas frente à sociedade brasileira atendendo, não só aos anseios de seus filhos pátrios, mas também as perspectivas sócio-políticas e culturais do país, a mesma, proporcionará um bom governo, na qual terá que ser apresentada e passada pelo crivo analítico desenvolvimentista tanto do âmbito nacional como internacional.

    A política do Brasil necessita de novas roupagens, pois sua configuração a cada governo direciona e muda os quadros sociais. Essa configurações, muitas vezes são negativas, pois desconstroem, mas ao mesmo tempo direciona novas problemáticas inseridas na sociedade brasileira. É fato, mas a presidenta do país está demontrando que sua capacidade de pensar politicamente o Brasil, não só requer conhecimento de sabedoria, mas também de sagacidade de saber combater o mal que assola o poder: corrupção. Eis umas das etapas mais fundamentais para ampliar a exercício de democracia, que é intríseca na sociedade moderna.

    Abraços Professor

  • Emanoel

    É preciso ousadia para governara o Brasil. Os interesses impedem maior precoupação com as mudanças. Vamos ver at´r onde vai o fôlego de Diilma.]
    abs
    antonio

  • Filipe Machado disse:

    Ouvi em uma entrevista na rádio CBN, concedida por um comentarista e cientista político que a pesquisa que apontou avanços de Dilma em algumas regiões é fruto do acaso e não de seu combate a corrupção. Entendo que Dilma tem a dura missão não só de realizar um bom governo, tem, contudo de demonstrar que é capaz de ser uma forte opção para a reeleição. Sua briga será com a oposição partidária, más também com o próprio PT.

  • Dilma

    Dilma está se situando. Esse ano vai ser decisivo. Vamos ver.
    abs
    antonio

 

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