Sentimentos: as conversas miúdas e os amores vadios

Nunca se deixou da falar sobre os sentimentos. Mesmo no tempo em que a razão parecia inquestionável não havia como não citar  coragens, amores, frustrações. A vida não pode se resumir a cálculos e estratégias definitivas. Queremos certezas, ultrapassar obstáculos, narrar êxitos, porém não há esquecer as dúvidas e as ambiguidades. A vida é um jogo. Sem exagero, não se trata de lugar comum observar a luta para negar as fragilidades e os discursos enganosos que exaltam imortalidades inatingíveis. As discordância não se encerram. Os totalitarismos fracassam e ressurgem, porém a garantia de uma verdade absoluta é manipulação.

Razão e sentimento andam juntos. Temos intenções de separá-los. Faz parte da construção da história o interesse em firmar separações. As coisas se tocam, as distâncias não significam, sempre, estranhamentos. As circularidades atravessam nossos territórios. Estamos longe de comemorar sucessões progressivas. Há perdas, contemplações do passado, arrependimentos, o presente não é anúncio de um futuro coerente, com regras homogêneas e rebeldias controladas. É difícil anular os desenhos dos labirintos representando dos descompassos das experiências.

Os desamores assustam, nos colocam em situações limites. Trazem  depressões e desencantos. Muitos se envolvem com as vestes da fatalidade. Vivem a emoção na sua radicalidade, desmontam saídas, amargam pessimismos. Há, no entanto, outras trilhas que avivam redescobertas, que desmentem o fim, o desfazer da invenção. Portanto, as estratégias de isolamento podem ser doentias, propagarem culpabilidades. A instabilidade não se vai, contudo a imaginação não se quebra de forma incontornável. Nós criamos exílios como só existissem pecados eternizados. Carregamos os mitos de Adão e Eva.

O mundo das máquinas torna-se quase soberano. Há uma transferência de afetividades veloz. As conversas são curtas, monossilábicas. A comunicação com o corpo passa sinais de sedução, lembram o fascínio das mercadorias. Não é o cuidado do olhar que enternece. Vale a capacidade de possuir e concentrar, de se embalar na acumulação. É difícil encontrar compatibilidades, quando as compras e  as vendas se infiltram em cada ação. Muitos elegem a objetividade fria como armadura para fugir da dor e multiplicar neuroses avassaladoras.

Há especialistas que procuram desvendar dos desconfortos afetivos, teoria que sacodem os acadêmicos, mas falta sensibilidade para estreitar a convivência, não temer os escorregão, saber que sentimento tem história e contratempos. Muitas invenções, glórias científicas e ruínas. Desperdiçamos as proximidades, escondemos segredos, elaboramos e-mails preciosos e pouco exercitamos os abraços, os cheiros, o fluir dos perfumes. A imaginação se reduz, muitas vezes, ao que assistimos nas TVs. É mais uma cópia mínima, banalizada.

As sociedades não traçam homogeneidades, elas cultivam diferenças. No entanto, parece que há uma mão invisível que administra os comportamentos chamados saudáveis. A trilha dos sentimentos atiçam curvas, considera as ousadias. O virtual não é mentira, ele contamina, enfraquece os poderes de Eros. As histórias seguem celebrando os apelos proféticos. A sabedoria se dilui na impaciência e não consegue articular o sonho. No mundo do trabalho incessante, ser vagabundo é uma rebeldia, uma ameaça a quem se deslumbra com a produção e a grana.

 

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