As utopias redefinidas e as ordens dominantes

Grandes revoluções marcaram o tempo contemporâneo. Foram sustos e surpresas.  Nem todos se abraçaram aos seus desafios. Há destruição de memória, astúcias do jogo de poder, estratégias planejadas para transformar as relações sociais. Os fracassos também são inúmeros. Causam apatias e desistências. As revoluções não poderiam ser perfeitas, mas há quem deseje a transcendência e anuncie o reino da salvação. A burguesia fez seu caminho político. Vive de conquistas e suporta crises constantes. Já se falou no fracasso dos seus ideais, na morte do capitalismo. A burguesia continua administrando poderes e internacionalizando comportamentos.

As revoluções socialistas possuem seus históricos. Muitas frustrações, porque repartir riqueza é difícil, provoca mudanças mais radicais. O discurso da acumulação e do individualismo parece mais sedutor. Muitos muros caíram, a violência ganhou reforço da tecnologia, porém não se foram as utopias, nem tampouco a imaginação dos mais inquietos. Há uma dominação que constrange e que agrada. Ela descreve o círculo da ambiguidade. Mantém-se, pois consegue atrair maiorias ou exerce uma forte sedução com suas promessas de ascensão. Ela vence, anuncia vantagens e muitos não observam a quantidade de famintos e de refugiados que moram no mundo.

Tudo consagra uma estranheza. Temos compartilhamentos incríveis, mas cultivamos ódios e egocentrismos. Diferenças que se multiplicam e que as revoluções não evitaram. Maio de 1968 lembra momentos de rebeldias. Formou-se uma brecha para que a insubordinação se espalhasse. Não houve permanência. Os donos do poder firmaram uma repressão sufocante. As ideias animaram muitas mentes e corações. Refizeram utopias. Mostraram as hipocrisias tão comuns ao consumo de mercadorias. No entanto, não houve a revolução esperada e o tempo passou. Não custa retomar memórias. Muito sossego elege mediocridade.

Mudar a sociedade exige pedagogias profundas. Não é um caminho de velocidades. O diálogo não é apenas com teses acadêmicas. Elas movem inteligências.  As pedagogias não se fixam sem exemplos e paciência. Ninguém transforma por decreto. Ninguém assimila ousadias e adormece para não esquecê-las. Os acenos da transformação pedem ação e frequência. As revoluções que se preocuparam, apenas, com a ordem e o privilégio fracassam na intenção de reformular as pessoas. Celebrar o homogêneo, ditar regras, consolidar princípios. Talvez, seja preciso conviver com as diferenças, desde que elas não propaguem a miséria. A cultura estende-se quando se busca a compreensão, sem anular o afeto.

As discordâncias não deixarão de existir, porque as relações de força convivem. Lembre-se de Gramsci, ele ajuda a desvendar certos contrapontos. As revoluções sofrem críticas, revisões, desmanches. Contudo, o olhar sobre suas ruínas ou êxitos traz o fluir da imaginação e o desejo de recolocar utopias. Desconfiar de velhas verdades dominantes é um exercício de quem não cultiva pesadelos. Considerar o mundo sem jeito e aproveitar as boas conversas para se livrar de arrogâncias movimentam a história. O discurso salvacionista habita gavetas secretas e lança armadilhas. A sociedade está longe do absoluto, porém ele assanha as expectativas de futuro. Entre crenças, estéticas, princípios éticos, diplomacias fugazes, nós nos mexemos. É sempre um vaivém que não foge das agonias.

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