As verdades e as ruinas nos trapézios da história

A literatura desperta discussões sobre a verdade que redesenham as configurações comuns. Existir  é anunciar conhecimentos que dominem a sociedade e que provoquem sujeições constantes? Na política, os desencontros não param de acontecer. Fica difícil localizar-se e os choques são inevitáveis. Antever um mundo onde a harmonia seja um valor absoluto é um delírio. Na literatura, podemos navegar em embarcações habitantes das nossas fantasias. Isso nos conforta e aumenta a criação de ideias. Expulsar o sonho da história, reduzi-lo aos tecnicismos não  ameniza os desacertos. Terminamos sendo comparados a pálidos objetos de vitrines fabricadas com astúcias.

A dúvida se movimenta no cotidiano. Há estruturas sufocantes que intimidam e traduzem poderes violentos. É, no entanto, uma paisagem de um território que não tem medidas.  Por isso, inventamos as fronteiras. Há tantas vacilações, tantos voos sem destino que é necessário não se fixar em verdades e desconsiderar que os acasos devam ser subestimados. Não dá para ser escravizados por teorias que celebram o progresso. A história tem idas e vindas e incontáveis perdas. Quem se fascina com quantidades, descuidando-se das formas, diluindo as reflexões  está nutrindo fantasmas.

O incerto caminha sem sossego. Mas como viver apenas cultivando incertezas? Ninguém ignora as instabilidades, mesmo que os dogmas religiosos seduzam, iludam. Se as referências se apagam, as sociabilidades se desmancham. Para que haja diálogo, os conflitos têm seu tempo de descanso. A convivência é indispensável para o fazer histórico, mesmo que as tensões se mostrem permanentes. São ambiguidades que nos cercam, mudam expectativas, porém não há como fugir delas.

O que inventamos está no mundo flutuando ou escondido em alguma gaveta silenciosa. Nem tudo é visível, nem tudo é compreendido, nem toda leitura nos liberta das agonias. Não é à toa que as palavras andam em busca de amparo e que a vida merece especulações. Há lendas, mitos, tragédias. É imenso o devaneio que nos assalta a cada instante. As distrações aliviam os desencontros. Contudo, há amarguras que não se vão, acabam registradas num folhetim anônimo.

Escrever move a respiração. Não se trata de construir leis ou decretos definitivos. Organizar faz parte das aventuras sociais. Se tudo cai no império do que foi dito, da tradição que se impõe, a história não refaz seu espaço. Sem movimento não teríamos saído do paraíso ou articulado culturas. O que há a verdade aprisiona pode significar lixo semanas depois. Portanto, os atropelos não são incomuns. O trapézio permanece no circo, mas precisa de artistas. A história não se estabelece sem a diversidade e os  riscos.

Querer que a sociedade não fermente descontroles é sonho. Nem por isso, devemos enquadrá-la. Se não imaginamos superações, o tédio será absoluto. O sonho registra timidez, porém não deseja se arrastar como um fugitivo. A rebeldia é parceira do movimento, ela retoma memórias,  desafia as verdades. O fluir da história não cabe na mesquinhez do pragmatismo. A expansão da mesmice é quase um suicídio. A ruína não se distancia. O cuidado com o outro ajuda a despistá-la. Os sentimentos esfarrapados representam uma nudez vadia e desanimada.

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