As viagens facebookianas e os afetos flutuantes

Comunicar-se com o outro faz do mundo um lugar de negociações contínuas. É uma ordem do imediato. O tempo ganha, hoje, dimensões que se coordenam com a velocidade das máquinas. As tecnologias enchem-se de novidades e satisfazem os consumidores mais permanentes. A busca pela atualização é uma constante. A resposta é dada pela quantidade  de informações dos mais variados temas. O sentimento é assanhado, mexe-se no meio de confusões, pois os desmantelos são frequentes. Tudo parece, às vezes, tão livre como um voo para horizontes múltiplos.

Sempre muita gente, cidades buliçosas, moradias obscuras, perfumes desconhecidos. Portanto, é preciso que as mensagens sigam e voltem com fôlego. Há decisões, cotidianos, multidões exigindo que o mundo não se canse. O facebook possui cartografia privilegiada. Garante solidão, esconderijo, mas nele habitam pessoas diferentes que se animam com a futilidade mais remota ou celebram fazeres intelectuais de inesperado encanto. É um grande espelho, de formas reinventadas e imagens surpreendentes. Truques fantásticos junto com conservadorismos disfarçados e debates luminosos. Não seria exagero visualizar comunidades que também cultuam hábitos feudais, em plena época da globalização infernizante. Rabiscam honras e tradições.

A sociedade não dispensa as regras sagradas, mesmo que se fale tanto nos novos espaços do profano. Não dá para viver sem utopias. As amarguras não se desfazem com facilidade, porém seria um descaminho consagrar o homogêneo. Cada especulação não só pergunta ou vacila. A vida pede respostas e a convivência não mede a curiosidade. A sofisticação tecnológica é indiscutível. Difícil compreendê-la sem gramáticas especializadas. Os sentimentos, contudo, jogam com o vivido, não desprezam a valor de certas experiências. As ambiguidades navegam nos mares mais estranhos, atiçam descobertas, festejam crenças, não anulam os afetos. Portanto, as aparências podem enganar como dizem. Há alguém, contudo, que não estimule o faz de conta pelo menos uma vez na semana?

Na construção das sociabilidades, as culturas refazem perdas, mas nunca seguem plenas de certeza. As lacunas concretizam-se como acidentes existenciais. Escutar uma música pode não tocar no coração. No entanto, há pedaços da vida que possuem trilhas musicais inesquecíveis, capazes de mover amores e retomar desejos. É, apenas, um exemplo. No facebook, a repetição convida a expor momentos da vida privada ou buscar alternativas para amenizar ruídos de intrigas arrogantes. Busca-se, não se trata de uma diversão anônima sem repercussão nas interioridades de cada um. As leituras de imagem trazem divergências, as escritas provocam a adoção de sinais e desenham segredos sutis.

O flutuar é parte da história. Quem pensar em riscar uma linha reta, testemunhando equilíbrio, derruba os diálogos mais inquietantes da vida. A monotonia não cabe na extensão de cada ato. Ela lembra pontos finais, porém, é  efêmera.Tudo , talvez, se vista de grandes disfarces. O que esperar, se as teorias são demolidas pelas práticas, se os sentimentos estão nos romances, na sala de estar e nos bancos da praça. Esse imaginário social sacode o tempo. Cada lugar nos salva ou nos condena. O  purgatório alivia as instabilidades. É frágil, como a palavra desencontrada do seu último significado.

 

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