As violências: a história e os fundamentalismos

Fala-se da violência, como tema recorrente. Parece que está entranhada na história. Não tem uma forma definida. Ela mutila corpos, escraviza desejos, desfaz sonhos, quebra solidariedades. Não há uma época que não a localizemos. Ela está presente, assustando e intimidando. As guerras e os preconceitos não se construíram com a modernidade. Ela foi instituída com utopias que pensavam nos encontros com a cidadania e a igualdade. Muitos esclarecimentos, mobilizações, rebeldias, denúncias, revoluções. Mas a violência não abandonou o cotidiano. Sofistica-se, suspende esperanças, derruba fronteiras, cria infernos inesperados.

Os Estados Unidos sentem-se, mais uma vez, atormentados por ameaças e ações dos muçulmanos. Não há sossego. A perplexidade tem um domínio crescente, porém não custa olhar a história. Nada como dialogar com os tempos, não desprezar certas lições do passado, sabendo que a cultura não se desenha sem ambiguidades. Quem pode esquecer as invasões colonizadoras, os imperialismos, os escravismos, os conflitos de religiões? Tudo isso não partiu. Há vestígios inegáveis de coisas que se firmaram em outras convivências, com situações diferentes e concepções teóricas renovadoras. O retorno não é um absurdo. Ele vem com outras configurações, contudo lembra sons e cores já conhecidas.

Os atritos entre norte-americanos e muçulmanos não são novidades. Nem tampouco a prevalência dos discursos dos mais ricos sobre os mais pobres. A história possui vencidos e vencedores. Não queremos, aqui, defender a permanência de violências e arrogâncias. É difícil transformar. As inquietações desmontam e arrastam medos.Inventamos dissidências e desencontros. A crítica existe para ultrapassar abismos e arquitetar relações sociais com conteúdos mais animadores. As dissonâncias não surgem de repente. No mundo das informações, elas perdem reflexões, porque o descartável corrompe até as notícias. Portanto, forma-se um nó nas interpretações históricas.

Há revoltas contra a produção de um filme, nos Estados Unidos, que não respeita Maomé, desfigura as crenças da sua religião. Não faltam tentativas de apelos, diplomacias, perdões. No entanto, sobram ressentimentos. Eles voltam com força, deixam um suspense nas relações internacionais. As culturas não estão tão próximas como  acreditam os donos da globalização. Tudo não se resume a um mercado. As religiões afirmam sentimentos, os religiosos cultivam dogmas. No reino do absoluto, relativizar é, muitas vezes, uma ousadia inútil e provocativa. A sociedade enfrenta discordâncias profundas nas suas referências espirituais. A repressão age, as incompreensões se espalham, as conversas não silenciam os atritos. O controle é quase improvável.

Se tudo isso se esvazia, por momentos, não há garantia de que os pactos de paz se consolidem. Nomear os acontecimentos passados seria cansativo.  As recordações são imensas e persistentes. Recentemente, o 11 de setembro ganhou espaços e trouxe culpabilidades. Não há uma lógica previsível. Os fundamentalismos refazem-se, na contemporaneidade, e não são exclusivos das religiões. Muita gente idolatra sistemas econômicos, não conseguem jogar fora seu cartão de crédito, confiam nas farsas de políticos fabricadas. A violência e a iniciativa de evitá-la percorre a aldeia global. Não é saudável produzir hierarquias, mas é importante visitar a história e conhecer seus contrapontos. A poeira das desconfianças fortalece tensões.

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2 Comments »

 
  • Zélia Gominho disse:

    Antonio Paulo, me espanta que muita gente se quer mencione sobre o que está acontecendo no Oriente Médio, o espetáculo da violência nesse setor banalizou-se, infelizmente. Fundamentalismos preservam hipocrisias e mediocridades históricas; mas, o que vem me incomodando é até que ponto a “liberdade de expressão/ de imprensa” pode ser responsabilizada, e arcar com as consequências da falta de respeito para com a pluralidade cultural, e, especialmente, a religiosidade de um povo em particular? Por causa de um filme, e agora por causa de charges francesas, muita gente está morrendo, um rastro de destruição avança. Duas bombas foram detonadas, pra quê? Defesa de liberdade e expressão suporta acionar irracionalismos?
    Abraço!

  • Zélia

    A confusão é grande e as perdas imensas. Ficam interpretações soltas e o conflito produzindo estragos.
    abs
    antonio

 

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