As visitas da memória e da solidão

A expulsão de Adão e Eva do paraíso ainda agita cabeças e corações. Muitos gostam de caminhar entre as fantasias e brincam com a força tirânica do pecado original. Somos animais sociais. Não tenho dúvidas. Existe uma racionalidade que procura nos ordena. Se equilibra, não sei. Mas não deixa de ser instigante as nossas invenções ou as nossas crenças. Curtimos mitos que se parecem com deuses e lembram ações que cabem no cotidiano de cada um. Nem tudo é uma imaginação absoluta. Talvez, ela nem exista.

Construir sociabilidades é movimento e inquietação. As transformações não são imediatas e nem tudo pede urgência. Como esquecer as tradições e as nostalgias? Portanto, não há uma única interpretação do mundo, as divergências trazem conflitos, porém não podemos anulá-las. Há momentos que elas se acirram, que as violências se agudizam. Não estamos livre dos descontroles e os diálogos, às vezes, se tornam escassos. Há uma culto a certas verdades que cativam grupos, ressuscitando ingenuidades nada saudáveis.

Viver em sociedade é exercício. Custa silêncios e atrai rebeldias. O território da contradição nunca é desfeito. Desenhamos utopias harmoniosas que não acontecem. Ficamos numa solidão que nos afasta das turbulências e nos questionar se os outros representam o inferno ou a proximidade do sossego. Não é possível se desfazer de referências. Não é à toa que as memórias flutuam, que os imaginários buscam sonhos. A vida não possui resumos definitivos. Há vazios que se prolongam.

A solidão pode não se um castigo. Há instantes de reflexão que não toleram ruídos. Não adianta, no entanto, tranca-se e admitir que se encontrou com as certezas. As vacilações mostram que as sociabilidades se vestem com histórias que se misturam. Inventamos origens, firmamos mandamentos, estranhamos a falta de fé. As linguagens existem explorando formas e cores, mas os contrapontos não se afastam. Somos animais sociais, marcados por diferenças e ambições, porém vivemos reforçando individualismos.

As experiências ajudam a sepultar erros. Nem sempre, as mudanças são garantias de estabilidade e nem determinam o fim dos desgovernos. A palavra felicidade se desgasta no meio da promessas insistentes. A complexidade social se aprofunda, porque as ideias se multiplicam e os encontros se diluem. A memória e a solidão nos sugerem que precisamos de identidades que não se fechem. A solidariedade, contudo,  sofre entraves e se exila de situações fundamentais. Um mal-estar geral acompanha a cultura, como afirmou Freud, aumentando as desconfianças e os desamores.

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