As voltas dos tempos históricos

Há sempre um debate incessante nos saberes acadêmicos sobre o tempo histórico, Visitamos o passado, corremos para os imaginários, não acreditamos nas previsões, mergulhamos nas tragédias gregas. Não adiantar fugir. Cada um julga sua temporalidade nos desenhos do corpo. O tempo é astucioso, não se deixa prender. Mas há quem diga que a história é mudança contínua. Sei que há muitas incertezas. Sigo as aventuras de Ulisses e contemplo suas espertezas. Ele tropeça, possui dúvidas e não deixa a perplexidade ir embora. Hitler pensou que ia conquistar o mundo. Delírios comuns nas travessias inoportunas. Nietzsche tergiversou, destruiu metafísicas e ainda assombra os teóricos. Não faltam exemplos.

Cada um tem sua vida. Mas as coisas não são de uma heterogeneidade absoluta. As diferenças contam limites, as tentativas de transcender as incompletudes não se foram. A vida se movimenta, porém as nostalgias não sossegam. Há quem aposte nas permanências e se deite no berço das tradições. É impossível esvaziar o mundo, vê-lo com uma única cor e forma. A socialização anuncia que a divisão é fundamental. No entanto, estamos cercados de egoísmos e de vaidades imensas. Parece que não existe punição, nem regras. Os contágios dos desfazeres podem riscar a história e pintá-la com a mediocridade. A rebeldia vale quando compõe a solidariedade.

A agonia com a acumulação se mostra na contemporaneidade. Ela não é só material. A produção é uma palavra quase mágica. Percorre espaços com velocidade. Os economistas lançam números e taxas. Os historiadores ressaltam a importância de resgatar o passado, de juntar as memórias, salvar a sociedade das agruras dos esquecimentos. Os relatos se espalham. A medida da riqueza é avassaladora. O peso do ter não se vai. Muitos contribuem para valorizar os que dão golpe, enganam, exportam bilhões e desencantam a ética. Não observam os outros. Banham-se em pântanos. Reforçam imagens inúteis.

Afirmar que o destino nos aprisiona não traz fôlego. Não há destino, porém possibilidades. Somos construtores de tempos, para além das datas oficiais. Estamos marcados com subjetividades. Inventamos. Há algo que nos faz próximos dos outros, que provoca afetividades e medos. Nem tudo é emboscada. Nos tempos não arquitetamos, apenas, descontinuidades. Os olhares se tocam, as empatias permanecem fustigando as sociabilidades. Significamos e transformamos significações.Reduzir tudo ao instante é mesquinho. O tempo é uma grande conversa. Há momentos que destroem lembranças e pedem novidades. A vida está suspensa. O tempo gosta de acrobacias.

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