Autonomia e dependência: as colonizações cotidianas

O estudo da história fez, muitas vezes, com que se pensasse nas tramas das grandes colonizações e deixasse de lado as armadilhas de dominação do cotidiano. Comemoram-se as datas de independência com paradas militares festivas. A memória é ativada, mas nem sempre a reflexão ganha corpo. Celebra-se uma tradição, sem maiores preocupações com o conteúdo político que ela representa. 1822 possui um valor simbólico indiscutível, mesmo com todas as críticas e o posterior governo autoritário de D.Pedro. Foram muitas rebeliões contra Portugal, embora a maioria esquecesse de lutar, também, pelo fim da escravidão. Tínhamos um problema social grave que os liberais não queriam polemizar a sua radicalidade. Focava-se os impostos, os excessos das práticas mercantis e os desejos de construir-se uma nação. O nosso colonizador não gozava de prestígio nas relações internacionais. Vivia cheio de dependências.

Toda América rompeu suas amarras. Procurou fortalecer sua autonomia. Era impossível afastar-se dos todos costumes implantados. A discussão sobre a identidade trouxe agitação para os intelectuais e se estendeu pelo século XX. Há inúmeras correntes, há quem sinta saudades das simpatias portuguesas. A nostalgia é componente da cultura e se mistura com as buscas de raízes, tão comuns em contextos tomados pelos exageros nacionalistas. Não é fácil se desfazer de tanta coisa, analisar as relações sociais, quando as desigualdades permanecem e o autoritarismo não cansa de mostrar sua fome avassaladora. O Brasil só se livrou da escravidão perto do final do século XIX. A República não se abraçou com a demoracia. O império se apagou, mas a minoria continuou dando suas ordens e escrevendo suas leis.

Findar colonizações transforma projetos e dilui certezas. Não é uma processo repentino, uma ruptura com o passado de forma decidida, sem vacilações. Basta observar como foram as independências nas diversas regiões do mundo ou como ainda permanecessem fortes vestígios de imposição de comportamentos e preconceitos. Os Estados Unidos construíram uma estrutura muita diferente de Equador, Cuba, México e de outras nações. Na Ásia e na África, a opressão não se evaporou, manteve-se de forma disfarçada, com cínicos reconhecimentos diplomáticos. A riqueza material é disputada, com violência, e o discurso civilizatório justifica invasões e perdas de limites.Quem não atenta para as continuidade histórias e se encanta com a expansão das mercadorias, assanha-se com as aproximações trazidas pela tecnologia.

Outras maneiras de colonizar se estabelecem, aproveitando-se dos fascínios das invenções modernas. Os meios de comunicação facilitam a circulação de ideias renovadoras, contudo armam espaços de dominação mais sutis, sem precisar de canhões, com imagens sedutoras e promessas de paraísos. O cotidiano envolve cada um de expectativas que esvaziam os significados da autonomia. O ser cidadão confunde-se com o ser consumidor. As grandes corporações controlam o mundo, desmontam governos, fabricam produtos e censuras. As dependências são articuladas para avivar a acumulação e esvaziar resistências. As TVs  tornam-se veículos de pedagogias traiçoeiras e ensinam a cuidar da imagem, traçam caminhos e redenções. Costuram-se poderes. As astúcias vencem distâncias, submetem interioridades. A quem pertence mesmo o nosso futuro ou qual a extensão das possibilidades de mudar os cenários?

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5 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    Quero destacar uma importante passagem do texto – o 4º parágrafo: Essa cultura pos moderna que vivenciamos com ideais de igualdade e liberdade propicia de maneira devastadora vários abusos em nossa sociedade. Como exemplo cito a mídia que expõe para os cidadãos o excessivo consumismo, vejamos ai o grande poderio das nações super industrializadas, e onde fica o social ninguém fala em novas políticas para o fim da corrupção, isso faz parte do grito dos excluídos, enquanto nas avenidas vemos o desfile de gala dos militares e quando o jornalista pergunta a uma criancinha o que você quer ser quando crescer ela diz: soldado.

    Soldado que protege mais que também abusa basta reparar depoimentos de moradores de favelas cariocas e as vezes que ocorrem a seleção de bandido atraves da cor da pessoa, a realidade é o absurdo que tem voz mais alta em nossa sociedade. Enfim se hoje tem uma colonização que reina em nossa sociedade é a mídia o seu papel é alienar, so basta reparar na maioria brasileira todos atentos para inscrição do BBB12. Acordar desse pesadelo vai ser díficil, mas acredito na esperança

  • Diógenes

    Grato pelas boas reflexões. É preciso ficar atento, para não cair nos feitiços. A reflexão ajuda a ver as contradições do mundo.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    O poder da ignorância é tão promíscuo que chega a frustar os pensamentos sincréticos que hoje são estabelecidos nas ditas sociedades capitalistas e as ditas socialistas. A convergência entre a autonomia intelectual e a obediência chega a dissolver o carácter social que dotamos como uma política de ordem. Certamente a dominação é das estratégias mais inteligentes de impor e burlar a consciência de quem é dominado. Esse jogo se utiliza de todas as ferramentes para tomar posse do que se quer, desde as mesma agir como uma raposa para se apoderar de sua presa, até mesmo confrontar com ferro e punho para obter seus desejos de comando. Necessita-se de conhecimento de mundo para não aceitarmos os cabrestos que são existentes no seio de cada sociedade, e isso não se faz só com a busca dos direitos, mas sim com a inteligência de apreendermos a criticar o mundo e perguntar o porque de tudo, pois é através das perguntas que formulamos novas questões e novos pensamentos.
    Abraços professor! Boa reflexão…
    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    A autonomia é difícil, pois exige reflexão e desejo de mudança. Isso é raro no mundo atual.
    abs
    antonio

  • Emanoel

    A crítica e o diaálogo ajudam a compreender os mutos contrapontos do mundo. Não podemos perder a vontade de dividir e estimular a solidariedade.
    abs
    antonio

 

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