Barack Obama vive entraves contínuos

A vitória de Obama representou um fluir de energias diferentes. Parecia impossível, mas aconteceu. Mudaram-se as expectativas. Tradições conservadoras fragmentaram-se. Correu uma onda otimista com a quebra de preconceitos e redefinições no caminho da história dos Estados Unidos. O mundo democrático celebrou. Mas, na política, os campos pantanosos são amplos. As desconfianças não se ausentam. Criam-se tensões e desconfortos, pois não há homogeneidades e os interesses se chocam. As instabilidades se instalam e as máscaras cobrem os cinismos. Não é fácil conhecer os limites éticos, nem que intenções, efetivamente, garantem a superação dos impasses.

A permanente crise econômica traz suspenses, para uma sociedade acostumada com a hegemonia de seus exércitos e a multiplicação dos seus lucros. Obama suporta pressões, tem receio de radicalizar o discurso. Há republicanos fundamentalistas que não toleram falar em divisão de riqueza, nem tampouco em preocupações sociais. Por isso, ele não deixa de recorrer aos mitos norte-americanos. Decepciona os mais liberais. Tudo pelo orgulho nacional de não refletir sobre fracassos e derrotas, numa época de incertezas incessantes. Suas ideias, muitas vezes, perturbam grupos importantes, sem senso crítico, adormecidos no passado. Obama fica sem saída, com a liderança  ameaçada. A aldeia global coloca, em questão, planos que ele elabora para salvar as finanças gerais.

Há outros desacertos. Os Estados Unidos não conseguiram solucionar os conflitos no Afeganistão e no Iraque. Convivem com fantasmas do terrorismo, lembram-se de desaventuras imperialistas, temem pela falência dos negócios na Europa. As portas se trancam e as chaves desaparecem. Obama sobrevive, segurando-se num discurso que insiste na retomada dos sagrados valores nacionais. Ressuscita tempos, fortalece dúvidas, mostrando com as trilhas estão mesmo esburacadas. Os Estados Unidos surpreendem-se com as variáveis que se apresentam. Esquecem-se que as histórias não desenham exatidões, nem adivinham futuros. Elas moram no reino do inesperado.

Existe quem se encante com as profecias. Ela é, apenas, um disfarce, um jogo para evitar a exacerbação das controvérsias e do niilismo. Obama vive o cerco, o desencontro de uma sociedade que não suporta perdas e pouco especula sobre a eternidade de sua força na ordem internacional. A responsibilidade de seus presidentes é incomum. Imagine, então, Obama na singularidade da sua gestão, rompendo com continuidades. Portanto, o quadro político não poderia ser de sossego. Os Estados Unidos possuem problemas internos que transtornam e desfazem o sonho de uma democracia exemplar.Talvez, estejamos vivendo metamorfoses que não se restringem a territórios determinados.

Tudo se toca, a conexão é intensa, as redes sociais inquietam-se. Muita superficialidade atrai os que gostam de se olhar no espelho. As sociedades, contudo, buscam também transgressões, não se afundam, apenas, nas armadilhas do narcisismo. As correlações de poder são outras. Se o mercado seduz, há quem reivindique igualdade e fraternidade. Há utopias que voltam e distraem os pesadelos.Desmancham modelos de felicidade pragmáticos. Querem mais. Riscam os planejamentos que prometem quantidade e tentam olhar adiante. Há afetividades que precisam ser cuidadas. O mundo no qual o peso da moeda é considerado o mais significativo bem  merece crítica. Sentimentos escondidos provocam dores. Será que Obama sabe disso?

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7 Comments »

 
  • Angélica de Paula disse:

    Barack Obama parece ter sido o primeiro presidente americano, posso pensar em Kennedy também, que despertou simpatia no mundo imerso na cultura americana. A euforia que se deu no Brasil, não só na imprensa, mas na população em geral, após a eleição do primeiro presidente negro dos EUA demonstra o quão alinhados estamos ao universo americano. Parece que o American Way of Life vai além dos anos dourados, dos pôsters pin-up, dos comerciais de eletrodomésticos revolucionários dos anos 60…e ele permanece. A guinada chinesa ainda não tem efeitos tão fortes no nosso modo de vida como a americana teve e tem até hoje. A cultura americana está impregnada no nosso cotidiano seja através dos objetos (vide Ipods, Ipads, Iphones, Macs, Pcs, Levis, Adidas, Nike etc.), seja pelo aspecto intelectual/cultural – além do cinema, a febre pelas séries americanas revolucionou nossa forma de entender a televisão -, sem falar no “deus” Google. Não que esse jeito americano de ser seja em todo ruim, nada é tão no seco ou molhado assim, eu mesma sou uma assídua telespectadora de séries, e usuária e ouvinte da tecnologia e da música americana; o problema é que não podemos absorvê-la sem pararmos para refletir nas consequências que essa absorção representa nas nossas “redes sociais”. O perigo é quando estamos tão afobados, eufóricos, envolvidos e esperançosos com a eleição do homem mais poderoso do mundo que não conseguimos observar as implicações políticas que decorrem desse fato.

  • Bruna Maria disse:

    Parece que o “norte americano” prefere fechar os olhos e não ver o mundo ao seu redor ruir. Vivem de mitos, icones e sonhos; os quais agora não tem lugar estável na sociedade. E acabam fechando os olhos e ignorando a realidade que os cerca. Agem como se estivessem dentro de uma zona de proteção e, uma vez ali, nada pode abala-los ou interferir em suas vidas “promissoras”. Muito menos que eles tenham que se importar com o que acontece com o outro.
    Porém ainda continuam fiando suas teias, lançando seus aviõeszinhos não tripulados por ai, causando mais tulmuto. E se alguem aponta para eles e diz que são culpados, eles voltam com a ideia do sonho norte americano, o orgulho americano, que não cega, mas permite que fechem os olhos por vontade propria.

  • Bruna

    Falta um olhar crítico. Terminam ficando na repetição e não conseguem analisar as faltas e os desmantelos. Isso não é bom,a vaidade prevalece.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    É incrível o quanto a política nos ensina a viver e aprender suas artimanhas. O governo Americano, por certo tempo, foi dominado pelos princípios europeus, ainda existem resquícios da mesma. No entanto, manteve-se atrelada as suas imposições e dela soube desvencilhar com grande habilidade, isso há uns séculos atrás.

    Mas como a história não é parasitária e sim cíclica, a mesma aprendeu a criar suas próprias incursões históricas. Desenvolveu modelos de pensamentos vinculadas ao poder e as transformou muito bem se utilizando das formas mais cruéis para torna-se no que hoje ela é: potência Mundial.

    Os desenvolvimentos aderidos a sua política ganhou novos espaços em todo âmbito da contemporaneidade, também configurou com suas obras projetos traiçoeiros, ao qual, mascarados a quem se alia a suas idéias passam a adotar novas posições, a mercê de sua força e poder.

    A construção dos Estados Unidos da América tem muito a nos ensinar sobre as problemáticas que ocorrem no seu cotidiano, pois são através delas que compreendemos seus reflexos na conjuntura social de conduzir sua história.

    As afetividades, perdas e expectativas da atualidade são os motins que os dimensionam a se situarem e afirmarem-se que são: inteligentes, mas que também convive com colapsos e que não donos da verdade, a China vem aí, alavancando suas forças. Concomitante as vaidades são instituídas e acrescidas devido a esses e outros aspectos que permeiam a sociedade americana. É por meio desse conhecimento que se torna necessária a valorização do conhecimento político, contornando os sonhos de uma democracia, onde todos possam usufruí-la e compreende-la, para que seus significados findem-se nas suas exposições sociais, porém não só passadas apenas pelo crivo das ideologias, mas também, fundamentadas pela crítica e não apenas por promessas de liberdade.

    Ab, Professor.

  • Emanoel

    Seus comentários fizeram um bom diálogo com texto postado. O blog tem a intenção de abrir a fala. Isso nos torna mais próximos das coisas do mundo. Ajuda a fertilizar a reflexão.
    abs
    antonio

  • Filipe Machado disse:

    É bastante difícil entendermos a política partidária norte americana, em sua funcionalidade. Assim, percebo a vitória de Obama como uma consequência de acontecimentos internos e externos da vida americana. Quanto as suas intenções, pode até ser as melhores possíveis, porém, é primordial percebermos que o seu discurso nada mais é do que o discurso Democrata de sempre. O que o diferenciou fora a maneira como foram colocados e o contexto em que se impuseram. As disputas internas são bastante difíceis, porque envolvem questões seculares e a efetivação das promessas, passa por um contexto histórico bastante intrínseco da vida americana, onde, para eles, o normal é ter sucesso na vida e o fracasso é rechaçado.

  • Filipe

    Os Estado Unidos vivem muitos conflitos externos que são são disfarçados. Nem tudo está sob controle e há uma queda de confiança muito grande.
    abs
    antonio

 

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