Barcelona abraça Ronaldinho: o afeto não se esconde

O futebol não é disputa seca, onde a competição domina, amplamente,  e se faz soberana. Na  sua trama, há espaço para  afetos e contemplações. As violências, as misérias, as guerras  estão no mundo, mas não resumem as possibilidades humanas. A capacidade de inventar corre e desafia. A vibração do encanto não está, sempre, adormecida.

Como os belos quadros de Miró no universo da arte, Ronaldinho trouxe para o mundo do futebol deslumbramentos e seduções. Havia saudades de passes diferentes que enganassem os adversários, de faltas que mudassem a trajetória da bola com magia e da vontade de fazer gol fugindo do lugar comum. Quando ele surgiu tudo lembrava  um craque excepcional. A alegria atravessava  os corações de quem apreciava o futebol.

 Ainda muito jovem, nasceu em 1980,  desenha suas firulas, no esporte bretão, com a leveza de um Carlitos. Desfilava, em campo, como um dançarino, senhor de segredos e articulador de surpresas. Cedo saiu do Grêmio , não sem controvérsias. Seu objetivo era fugir da mesmice, conseguir espaço para ter fama internacional.

Prometia práticas diferentes. Não fazia parte das suas jogadas  a preguiça dos medíocres. Rumou para o Paris de Saint-Germain, em 2001, consagrado pela imprensa como uma revelação. Durante a Copa Libertadores de 1998, havia mostrado uma categoria especial. Deixou saudades em Porto Alegre.

O Grêmio não teve forças para segurá-lo, mas Luxemburgo o convocou para seleção, atitude mantida, por Felipão, para o Mundial de 2002.Na Copa, Ronaldinho não despontou como se esperava. O Brasil foi campeão, mas o talento do gaúcho não brilhou com intensidade. Transferiu-se, para o Barcelona, em 2003. Lá fez sucesso, ganhou títulos.

Eleito o melhor jogador do planeta, valorizou-se. A grana acumulou-se em suas mãos. A torcida o idolatrava, porém ele não permaneceu na forma que antes encantava. Vacilou. Muitos boatos sobre a sua vida particular circularam. O ambiente no Barça ficou pesado. Em 2008,Ronaldinho terminou indo para o Milan, em busca de novos tempos.

Na seleção brasileira, também desandou. Sofreu com isso. Dunga desconfiou do seu empenho. Não acompanhou o time que foi a África do Sul . As especulações se ampliaram. O que estava sucedendo? De onde vinha o descontrole? Ele voltaria para o Brasil? 

Resistiu  e não abandonou o Milan. A onda de instabilidade  não foi, porém, quebrada. Aquele sorriso , tão presente nos seus lábios, desapareceu. Não se configurava aquela soltura anterior. Tudo isso, não impediu os movimentos da memória. Numa partida recente, entre Barcelona e Milan, recebeu uma homenagem  admirável. Barcelona não havia esquecido o talento. 

Foi uma bela festa. Não à toa que ela aconteceu, justamente, na Espanha de Joan Miró, notável pintor da vanguarda europeia. Nos seus quadros expressa formas  e cores singulares. Possui um lugar insquecível no modernismo do século passado. Sua vasta obra concentra uma ternura infantil indescritível.

Morreu em 1983, quando Ronaldinho começava sua travessia . Sua arte é incomum, como futebol de um craque que busca retomar antigos ares. Quem sabe se o abraço que recebeu, de uma multidão entusiasmada, não lhe revele o caminho que os euros escondem e mascaram? Quando o ser-mercadoria domina, o labirinto sufoca e desarruma.

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2 Comments »

 
  • pedro pachêco disse:

    Esse fato que aconteceu com Ronaldinho lembra muito um que pude observar, das histórias do futebol, relembrada pela televisão. Acho que foi no final da década de 1980 ou início da de 1990. Um jogo entre Flamengo e Corinthians no Pacaembu, onde depois de Casagande ter saído do timão, faz seu primeiro jogo contra o escrete alvi-negro. O estádio todo canta “volta casão. teu lugar é no timão”.
    Uma pena hoje no futebol os clubes não conseguirem segurar seus idolos. E estes mesmos não quererem se solidificar em um só clube, ou ao menos, passarem um bom tempo em time que lhe reverencia.
    Sou SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE, assim como o querido Professor Antônio Paulo, porém hoje vivemos uma carência muito grande ídolos por uma série de motivos, entre eles: falta de valorização profissonal, ganância de empresários, jogadores e dirigentes, enfim. Acho que o último grande ídolo do meu amado clube foi o Zé do Carmo, depois dele tiveram alguns candidatos, mais que perdaram-se no decorrer do tempo.

    É a primeira vez que escrevo neste blog. Quero dizer que é uma enorme satifasção poder contar com mais um blog de futebol inteligente.

  • Pedro

    Agradeço a contribuição e a leitura. Espero tê-lo sempre.
    abs
    antonio paulo

 

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