Bauman: a vida se dissolve e desencanta

 

O tempo não tem pertencimento. Não há lágrimas que o convença a mudar sua rota. Talvez, nem ele a conheça. Vamos caminhando, de repente um abismo e tudo se finda. Difícil pensar a história, quando a abraça o desejo incontrolável. Morreu Bauman que tinha uma sensatez imensa e criticava o mundo capitalista com intensidade. Sempre as perdas nos trazem reflexões, nos carrega de saudade, nos desperta para a importância de quem se foi. Há quem apenas seja reconhecido com a chegada da morte. Lembre-se de Nietzsche que se transformou num ídolo da pós-modernidade, mas sofre  desconsideração na sua época.

Estar numa sociedade veloz e complexa confunde. Desmontá-la , com análises, é um desafio. Muitos preferem se esconder, inventar teorias desconexas ou explicar tudo pelas idas e vindas da bolsa de valores. Esquecem os afetos, os desejos, as frustrações, as opressões. Bauman não se escondeu dos seu momentos. Tinha a agilidade de um pássaro gigante que voa sem perder os detalhes do horizonte. Vestiu-se com a decifração de enigmas. Incomodava-se com a exploração e a desigualdade.

Uma sociedade que se arrasta em busca do consumo, que se gasta ornamentando aparências, está com a saúde minada. O supérfluo dá ordem e os sem escrúpulos gozam de privilégios. Como silenciar? O pensador não deve acumular passados e desprezar o presente. Compreender o agora, compreender o que está próximo, compreende os traços do narcisismo. Bauman viu modernidade, a falta de consistência, os ruídos da grana, o individualismo extenso e covarde, os corpos doídos com a fome e a sede.

Não se calou. Denunciou. Sua escrita se espalhou. Não era um consenso. Há quem não aprecie suas considerações e as tema. Há pessoas que festejam as ondas do capitalismo com cinismo desmensurado. Bauman desfazia e esmiuçava as aventuras dos sucesso animados pelas propaganda. Entende a crueldade de um mundo que exila, marginaliza, concentra, desperdiça. Sem afeto, como dialogar e criar asas? O amor não existindo, as história se debilitam, as mesmices se instalam, a aridez se torna um território imenso, os valores se degradam com o rugir das violências cotidianas.

As mercadorias não param de apressar seus domínios. E nós não somos mercadorias? Não vendemos ou alugamos a força de trabalho? O que sabemos das armadilhas, dos conflitos, do jogo dos dominadores? As lacunas nos deixam enfeitiçados, acreditando em amigos ocultos. A obra de Bauman aprofunda questões, respira no meio da de poluições, nos toca. Seu texto nos alerta que somos responsáveis pelas disparidades, pelas vitrines macabras. É preciso sacudir a apatia. O sólido se desmancha. Faz tempo que olhamos para o chão, com se o descantamento nos acompanhasse.

Somos os caçadores da arcas perdida ou cavamos um buraco que não tem fim? Paz, Bauman. O poeta não é aquele que faz versos pomposos. O poeta é fundador concepções, não se acanha  com as incompletudes humanas. Administrar a sociedade, tirá-las do sufoco, não combina com a liquidez. Quem pinta os cantos do mundo, quem possibilita o reinício, transcende a massificação e as epidemias autoritárias. Não existem paraísos afirmados. A história se constrói, duvidando do pecado e da eternidade. A finitude e o limite não descansam.

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