Beliscões, ordem, beijos, folia…

Sou um observador do cotidiano. Acho seus detalhes fundamentais para quem apreciar as histórias. Não só nos aspectos acadêmicos, mas nas experiências de vida, nas diferenças de hábitos. As pessoas procuram vivê-lo enganando os sufocos e procurando ânimos. Portanto, nem sempre me empolgo com os grandes acontecimentos. Desconfio das manchetes que vendem  jornais. Os tempos midiáticos pedem sensacionalismos, não custa medir suas intenções. A fama enlouquece, diminui vidas, desfigura criatividades. Os exemplos são muitos. As redes sociais se enchem de fotos e lamentos quando alguma estrela morre, como a Igreja beatifica seus seguidores mais admiráveis. É uma confusão de valores, onde predomina o império da velocidade, com suas artimanhas.

Cada um arruma seu lugar, sofre com as perdas badaladas e, às vezes, esquece que há desgovernos, na sua própria vida, frequentes e profundos. Não há sociedade sem regras, rituais, rebeldias. Não faltam estudos sobre o comportamento e suas singularidades. O difícil é encontrar harmonias, franqueza, entrelaçamentos afetivos. A encenação garante a eficácia do disfarce. Expomos intimidades na internet, escondemos desigualdades e sacudimos o humor. Tudo isso faz parte da sociabilidade, da tentativa de aliviar o cansaço e esvaziar a mesmice. No entanto, as armadilhas existem, pois não há competição sem desenganos ou delírios.

O aprendizado está em todo lugar, traz a vida com suas cores. Numa das minhas caminhadas pelo bairro, ouvi atento a uma mãe perguntar para o filho pequeno: Você beslicou alguém na escola? Observei o desenrolar. A criança foi evasiva, não quis firmar clareza, sabia que a conversa podia engrossar. Não conheço os atores mencionados, mas a ordem estava em jogo , sinal de que as regras se movimentam, podem fixar o desenho da dominação, mesmo nos gestos mais comuns. Assim, se constrói o controle. Família e escola são instituições de valia, para manter as tradições.

( Já leu alguma entrevista de Fellini sobre o poder da escola? Ele é um crítico radical). Sobram, então, indagações: Como viver sem essas instituições num mundo voltado para a intensidade do trabalho produtivo? Com estruturar a ordem sem escolher limites e acioná-los? Ninguém nega que existe o outro, mesmo que não seja parceiro das suas atitudes. A diversidade não impede que haja momentos de conciliar desejos e rever lembranças. Qual o significado de um beliscão? Quais os critérios da educação pública? Quem  os determina? Por onde anda a política que abominava o pragmatismo e denunciava os desmantelos de forma consistente?

A sociedade de consumo não é uma exceção. Outras sociedades viveram conflitos e glórias. Nem tudo é do reino da disciplina. Chega o Carnaval e inquieta.Um voo na quebra de costumes, na exaltação da alegria, na louvação da soltura. São instantes passageiros, com amplas repercussões na comunidade, no cerco das vaidades e dos projetos. De repente, há o retorno aos escritórios frios,  às fábricas distantes, aos  shoppings das vitrines programadas. É gangorra da vida, do beliscão ao beijo roubado ou curtido. A sociedade não vive sem sentimentos, mesmo que eles obedeçam a calendários e marquem cartografias de incerteza. Não adianta agonia. O tempo passa.

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8 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Como estou acessando pouco o blog(infelizmente)tenho que escolher-devido a grande disponibilidade e também a falta de tempo-o que vou ler.Quando vi: “só passei para te dar um beijinho”, confesso que fiquei curiosa,pois,para mim,é um título que não revela muito em si…
    Realmente…um olhar atento a “simples detalhes” do cotidiano nos faz encontrar respostas que muitos procuram e não se dão conta de que estão bem perto.

  • Amanda

    É uma tentativa de mostrar as relações entre ordem e transgressão construídas no cotidiano.. Não se preocupe. Cada tempo desenha suas medidas e necessidades.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    sábias palavras…

  • Amanda

    Grato pela visita e pelas palavras.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Agradeço a você! Aprecio muito seus textos,seu jeito de escrever.Gosto de pessoas que,além de enxergarem com olhos de águia,nos proporcionam,também,este prazer.

  • Amanda

    Escrever é sempre uma conversa. Sinto assim, um contato com o mundo e as pessoas.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    É uma satisfação imensa multiplicar os talentos… Digo multiplicar porque,neste caso( A escrita),o talento é repassado para várias pessoas,semeando,com isso,maravilhas em muitas vidas.O diferencial do fazemos está,justamente,para quem fazemos.

  • Amanda

    Tudo atividade que mexe com a educação e a solidariedade multiplica muito. Isso é bom.
    abs
    antonio paulo

 

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