Brincadeiras de vida/morte no descuido do outro

                    

Viver é multplicar-se. A identidade de cada um não está parada. Ela se espelha nos outros, mas se firma nos seus atos de autonomia. A queda  constante das certezas e o aumento do consumo dos descartáveis influenciam nas descobertas da vida. Portanto, a identidade se movimenta, jamais adormece na monotonia de um único som. Melhor seria falar-se em identidades. Os modelos de comportamentos impõem-se, trazendo massificações e desconfortos. No entanto, os espaços de fuga renovam-se.

Por isso, não adianta escrever fórmulass. O fluir é frequente. Acompanhá-lo é uma travessia que não dispensa cuidado. Olhar para o mundo, com pressa, dispersa a contemplação. A velocidade é perigosa. Traz inquietações aceleradas. Desfaz reflexões e subverte a possibilidade do encanto. O apego aos apelos das marcas dominantes ameaça quem imagina o conviver como reinvenção. Nada de suprimir as diferenças culturais. O caminho da aproximação ajuda a eliminar a violência. As solidariedades são curtas, porém sobrevivem.

A vida não é acumulação de idas aos bancos ou horas inesgotáveis de trabalho. Não há afeto, brincadeiras, toques de magia? Quando a violência ataca, cria-se um espetáculo de imagens que mascara seus desmantelos. Tudo parece um videogame imenso e traiçoeiro. Não se trata de empinar pipas, de ensaiar cantigas de roda, de jogar bolas nas calçadas duras. Dentro dos templos pós-modernos, há lugares de exercícios ambíguos. Nos playcenters,  crianças viajam nas astúcias eletrônicas. Brinquedos de vida e de morte.

A memória traz nostalgias. Não existe saída para sacudir todo lixo da contemporaneidade fora. Por acaso,  houve tempos sem desacertos, plenos de harmonia e de saudável relação com os deuses? Se aumenta população, a tecnologia se expande, o mundo ganha objetos e redefine suas distrações. Trabalhar é uma palavra de ordem, forte, acelera os instantes e disfarça as incompletudes.O altar do consumo exige santos espertos e gratificações crescentes.

O espanto, com certos acontecimentos, não desapareceu. Criança morre por falta de atendimento nos hospitais, adolescente assassina colegas na universidade, casais praticam cerimônias de louvação aos demônios.  Não são notícias raras, nem tampouco se restringem às famosas páginas policiais. Os assaltos entram, no ritmo do cotidiano, e os policiais humilham os presos. O silêncio não é geral, mas as liquidações dos grandes magazines empolgam como nunca.

Compra-se e vende-se. Cuidar dos negócios é uma expressão usada, com certa arrogância. Cuidar do outro já não causa tanto eco. Muitos reclamam que é preciso não se atrapalhar. A melancolia rouba a energia. Distância dos que estão tristes e vagam pelas avenida em busca do mínimo. Armam-se estratégias seguras para  não se perder bens e consagrar valores. O nome vem, muitas vezes, de um celular ou de um automóvel.

Conhece José, aquele da Tim, do pré-pago ? Viu o Ford de João, aquele que mora na cobertura com piscina? Assim, novos vocabulários assumem a coisificação das relações sociais, fermentando riquezas, mas sem se livrar dos desamparos e dos sorrisos sem ânimo. As referências pedem leitos de hospitais.  A sociabilidade muda, o outro não se foi. Você é que não se lembra de aconchegá-lo.

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4 Comments »

 
  • Érica disse:

    Prof.Antônio Rezende…É com muito prazer que todos os dias leio o seu blog e tive conhecimento do mesmo através de Fávia Faria da PROEXT…Desde então, fiquei impressionada com a forma pela qual o senhor retrata questões cotidianas de uma maneira tão clara e ao mesmo tempo de uma forma aprofundada, nos fazendo refletir de coisas que nos escapam diante da correria diária.Sou aluna de Serviço Social e diversas temáticas que o senhor aborda são do meu interesse não só como futura assistente social,mas também como pessoa.Espero que o senhor sempre esteja a nos presentear com os seus textos…
    Um abraço,
    Érica!!

  • Érica

    Agradeço sua visita e espero sempre trazer a vida para ser contemplada pelas palavras. Fico feliz com seu comentário, pois é bom ter o convívio aberto a sugestões. Vale a troca e o afeto que fazem o mundo girar.
    abraço
    antonio paulo

  • Juliana disse:

    Boa noite professor,
    Passei a ter conhecimento do seu blog através de Flávia Faria da Proext e fiquei bastante curiosa para ler seus textos. Estou gostando muito dos temas que estão sendo abordados, me fazendo pensar e ver que realmente certos valores não estão mais existindo e que a sociedade esta se calando diante de tantas tragédias cotidianas. Parabéns professor e obrigada por nos contemplar com esses textos maravilhosos.
    Juliana Araujo
    Estudante de secretariado da UFPE.

  • Juliana

    Grato pelas abservações e espero tê-la ajudado a pensar as coisas do mundo.
    abraço
    antonio paulo

 

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