Cadê a violência simbólica e o fim do mal-estar?

A quantidade de notícias, sintetizando crimes e agressões, é assustadora. Não precisa mencionar nem as costumeiras guerras que se espalham pelas mais diversas regiões. Elas teimam em fazer parte da história. Perambulam pelo mundo, fixando hábitos e afirmando necessidades de destruição. Falo, aqui, dos assassinatos do cotidiano, motivados pelas discussões nos trânsitos, pelos desgostos amorosos e ressentimentos que não se findam. A atmosfera de vingança consegue ressuscitar raivas do passado e instituir armadilhas, pensadas com frieza e objetividade. Nem quero citar as famosas banalidades. Elas irritam certas pessoas e provocam atitudes de agressividades imediatas. Depois de tantas reflexões sobre a liberdade e as diferenças entre as culturas,  a violência ganha um corpo monstruoso e inusitado.

E a questão da violência simbólica? Ela não se ausenta das discussões. É fundamental, segundo alguns, para constituição da subjetividade. Quem não se lembra das superações articuladas, por cada um, na construção do complexo de Édipo? A violência simbólica dialoga com limites, cria fantasias, desvia comportamentos, demole afetividades. Quantas inquietações e desprezos são resolvidos com conjecturas ou saídas para outras dimensões labirínticas? Não se consuma a morte do corpo visível, mas se atingem conteúdos morais ou tentativas de firmar hierarquias. Outras muralhas consolidam-se. Quem perde, pode ser aniquilado e ter sua coragem esfacelada. A sociabilidade é conquistada com gosto amargo e superficial.Os danos possuem pesos e medidas, com cores estranhas ou comuns, porém testemunham sofrimentos desnorteantes.A superação de tudo se torna, muitas vezes, impossível. Como diz Sartre, O inferno são os outros.

As gramáticas das culpas e dos pecado são milenares. Mudam vocabulários, sintaxes e conjugações de verbos. O conflito parece estar instaurado, sem pontos finais. A cultura não consegue remover suas tradicionais configurações ? Ou os hábitos, a ordem e trangressões tocam ritmos mais metalizados? A violência dói e desespera, contudo assombra e se mantém atuante, mesmo em épocas ditas de paz. As pedagogias transformam suas práticas, as sofisticam ou as consagram na elaboração dos projetos diários. Há muita repressão e vontade de representá-las. Em divertidos jogos há simulações de violências e extensão de preconceitos. As palavras ofendem e arruínam desejos, com códigos disfarçados em escrituras sagradas. Para além dos sorrisos, concatenam-se  genocídios, justificados e apoiados  por cientificidades ambíguas.

Muitas revoluções aconteceram e movimentos culturais anunciaram convivências solidárias. Desenharam-se sonhos, para refazer a comunhão  escondida em algum beco do passado. No entanto, as invenções modernas não amenizaram os impactos do narcisismo e do incômodo com os espelhos das imagens da incompletude. Os descompassos não se afastaram dos seus acordes sinistros. A competição é acirrada pelo acúmulo de bens materiais. Quem merece monopolizá-los ?  O mundo assume uma complexidade que não cessa de colonizar os desfavorecidos.Esfarrapa resistências. O mal-estar, tão enfatizado, por Freud, continua. Redefinem-se as estratégias, porém, em cada esquina, há sombras, esperando um triste desfecho fatal. Até mesmo o fascismo se apresenta com outras vestes. A pulsão de morte acompanha a vida, como um anjo da guarda invertido, inimigo das estrelas douradas e dos paraísos sem serpentes. Lembro-me de Goya.

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6 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antonio, a lembrança de Goya -para mim- tem o significado da coragem, da autonomia de quem pode dar vazão à sua indignação não obstante os perigos dessa ousadia em tempos só propícios aos rebanhos, aos doutrinados pelo discurso conformista onde nada há que se fazer senão resignar-se.
    A questão é se acomodar ou resistir. Sabendo que se a primeira é mais confortável, a segunda, e dolorosa, é imprescindível.

  • Valério

    Pois é, não dá para ser omisso. É muito desmantelo e cinismo.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    A violência simbólica destrói lentamente. Ela não tem espaço de divulgação na mídia e segue quase incólume, duradoura.
    A violência gratuita do dia a dia, por motivos banais, revela comportamentos de uma época em que a sociedade era tribal e cada ajuntamento humano não contava com mais que um punhado de gente em contstante disputa. A civilidade nos diz que não precisamos mais disso hoje. Mas a competição quase sempre leva à intolerância, que se revela na violência banal.

  • Pablo Fontes disse:

    Fria, sorrateira, injusta, colonizadora, nojenta … poderia citar muitos adjetivos desta linha. Lutar contra isso ainda é o melhor caminho, mesmo que sem grandes resultados. Fazendo isso estaremos plantando grandes resultados para grandes mudanças.

  • Pablo

    O desafio é pensar como não se deixar levar pela agressividade e tentar buscar formas de convivências solidárias.
    abs
    antonio paulo

  • Valério

    São várias formas de marcar o outro com a negação. Isso anula sentimento e otimismos.
    abs
    antonio paulo

 

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