O Historiador: calar, consentir, dominar

As relações sociais exigem manipulações que surpreendem e ajudam a fixar privilégios. Criam-se saberes que conversam com poderes e conformam o jogo político da sociedade. Não há regras definitivas, A história é atravessada por surpresas, não existe um destino programado para encerrar as especulações e nos transformar em seres mecânicas. Os desafios se multiplicam com seus lugares e tempos com cores e sons diferentes. Portanto, a construção histórica movimenta possibilidades, requer ousadias, mas também convive com naufrágios e suicídios.

Não há como aprisionar os atos humanos numa continuidade silenciosa. Os ruídos fazem contrapontos, as arquiteturas possuem geometrias que mudam e ameaçam funcionar como labirintos. O historiador ler o mundo, sem determinar uma linguagem exata. Idas e vindas se compõem. Dissonâncias não se vão, os ritmos desenham-se buscando fugir da mesmice. Não há, porém, uma história que esgote ou o tempo com ponto final. Há a permanência de dúvidas, mesmo que os apocalipses sejam imaginados e as angústia nos empurre para a beira do abismo.

Quem domina não se afasta das seduções. Usar a violência para se tornar senhor da história é algo perigoso. Silenciar quem exalta o diferente é uma prática de quem se instala no poder. Há coerções, porém também promessas de salvação que aliviam as tensões. Disciplinam-se os rebeldes com sutilezas. Não se trata apenas de calar para evitar desordens. Exercer o poder pede contacto com os controles da linguagem , capacidade para inventar palavras e não deixar que o conhecimento tenha um único caminho. Nem todos consentem ou se acostumam com as hierarquizações sugeridas por quem vigia e trama para consolidar suas leis.

O contador de história habita um território de moradias desiguais. Com seu olhar tenta descontinuar consensos. Insistir na homogeneidade é mostrar narrativas no que elas mais escondem das relações humanas. Os consensos mascaram conflitos ou diálogos para neutralizar a queda das sociabilidades. A história dá voltas, o corpo se encontra com outros corpos, mudam seus perfumes. O ofício do historiador trapezista está longe da monotonia. É ágil, não teme o acaso. Quando ele se distrai e consagra a linearidades, apaga as magias. Escraviza-se na repetição de metodologias. Não deve consentir, contudo, que a história eleja a coisificação proclamada pela força do reino da mercadoria.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 Comments »

 
  • Valda disse:

    Penso que hoje (que é o meu tempo) o ofício de Historiador requer muitas habilidades, além de um certo condicionamento físico e equilíbrio “anímico”.
    Analisar a realidade histórica de hoje com tantos vieses, apesar da tentativa geral de fazer parecer que só existem dois caminhos, que a História é definitiva e linear, está se tornando uma atividade emocionalmente cansativa!
    O que nos consola, enquanto professores de História é saber, que por mais difícil que seja o período, um dia esse ciclo se encerra. Até lá, haja paciência, estômago e malabarismos contemporizadores.
    Obrigada, pelo texto, caro mestre.
    Abraço.

  • Valda
    A história sempre inquieta, mas não podemos ceder aos atos de opressão. Somos vida e não, perversão.
    abs
    antonio

  • Rivelynno Lins disse:

    …os encantos da disciplina de história se multiplicam, expandem os olhares do ver e do perceber, as certezas se vão, o conhecimento se torna uma entidade infinita sem contornos e fronteiras definidas. Esses movimentos de fluxo e refluxo, revisão, continuidades, descontinuidades contribuem significativamente para que elementos mais humanos entrem nas narrativas históricas e façam sentir o que antes era e, infelizmente, ainda é ignorado por muitos “historiadores”, os afetos, as sensibilidades, as solidariedades, as diversidades físicas e subjetivas dos corpos, das coisas, dos animais, da natureza. Estar no mundo, sentir e participar da sua construção com um viés mais integrado aos direitos humanos, a cidadania inclusiva e o fortalecimento de um estado democrático de direito é um desafio diário, pois a liberdade faz parte de uma conquista sempre inacabada e a história pode ser capaz de nos mostrar isso, quando construída com bases de sofisticadas sensibilidades a serem descobertas num ciclo infinito…

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>