Celebrações datadas, afetos restritos

 

Amanhã é o dia dos pais, segundo anunciam as propagandas e as lojas comerciais. Aliás, existem vários calendários. Eles organizam o cotidiano. Possuem funções burocráticas, mas também inventam afazeres e celebrações. Nas grandes revoluções, os calendários passavam por mudanças. Havia a inauguração de uma nova vida, o desejo de destruir tradições, apostar em transgressões. Nem sempre, o desejo do novo perdurava. Napoleão perturbou o caminho mais radical da Revolução Francesa. Stálin massacrou as ideias de Marx, derrubando sonhos e praticando violências. Portanto, a história se compõe de ritmos, desagrada,  harmoniza. Há gente que gosta de acumular moedas e aquecer sentimentos, vendendo mercadorias.

As celebrações fazem parte da cultura, desde os seus tempos mais remotos. Acompanham seus deslocamentos. A sociedade escolhe acontecimentos, julga sua importância e se envolve com festejos. As circunstâncias mudam. Há esquecimentos. Muitas coisas se diluem e perdem o peso histórico. Com a globalização, os espetáculos ganharam espaços, fama e ocupam as TVs de forma sistemática. Tudo pode ser motivo para alegrias ou frustrações. Existem empresas que se dedicam a destacar fatos e homenagear pessoas. Na sociedade de consumo, o poder da mercadoria fertiliza encontros que se estendem para dar dinamismo ao valor de troca.

O desejo de aparecer comanda muitos comportamentos. O interesse predomina, o afeto é substituído pelo vaivém do comércio, provoca ansiedades datadas e efêmeras. O dia dos pais é amnhã. Não tem a badalação do dia das mães. Não concorre com as agitações de final de ano. Seu lugar é mais modesto. Talvez, nem supere o romântico dia dos namorados.  Certas avaliações se conectam com o valor do presente. Há quem se decepcione. Pergunta-se até que ponto há aconchego naquela relação ou se trata, apenas, de uma formalidade. É  capaz de deprimir. O contágio da grana é cruel e avassalador. Ela tornou-se uma medida.

Sou pai. Duas filhas (Maria e Marina), dois filhos ( Gabriel e Marcelo). Fugi da pedagogia da oferta fácil, dos enfrentamentos artificiais. O afeto se constrói em cada ação, não é exclusivo de datas. Não pode ficar em segundo plano. O significado da paternidade é tão superficial que se esgota num almoço? Entramos nos divertimentos sociais, mas não é necesário vê-los como indispensáveis. O fundamental é dividir e socializar experiências. O corre-corre impede reflexões, esgota energias, elege momentos. Tudo isso num mundo infantilizado que cai em amardilhas preparadas pelas vitrines, tão faladas, dos shoppings.

Nada contra curtir a vida. No entanto, há valores, tradições, lembranças. Alguns deveriam estar na lata do lixo. É preciso olhar bem para as seduções do descartável. A crítica não indica submissão a amarguras constantes, nem tampouco a vontade de esvaziar o que move o coração. Significa não se iludir com as exaltações do sistema. O afeto tem o seu lugar. Fortalece a solidariedade e não merece restrições coisificadas. Celebremos, porém não afundemos as emoções em fotos sem expressão, em abraços ensaiados. Cumpramos os ritos de passagem, com o sentimento aceso na intimidade. Boa sorte, a todos os pais e filhos. O mundo se alarga quando o amor não vacila e o sentimento encanta.

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4 Comments »

 
  • Anderson Carlos disse:

    O capitalismo e a nossa sociedade atual procuram sempre mecanizar nossos sentimentos e afetividades. Chegamos hoje a um estagio tão assustador da nossa cultura que não somos capazes de demonstrar nossos sentimentos e nos refugiamos em datas como esta para soltar nossas admirações.

  • Anderson

    É confuso saber como o sentimento se mantém. Muitas festas, poucos afetos.
    abs
    antonio paulo

  • marcio lucena disse:

    Antonio,

    Não curto o comércio que rola em torno do dias dos pais, das mães, dos namorados, do natal…
    Renuncio aos presentes comprados pela pressão da ‘data oficial’…

    No domingo recebi dois presentes, encantadores:
    primeiro, os beijos dos meus meninos (o mesmo beijo de todo dia)
    segundo, Patricia leu para mim um conto de Osman Lins (Elegíada). Texto belíssimo. Vale uma olhada.

    abraço
    marcio lucena

  • Márcio

    Fez muito bem. Vale o afeto que não é mercadoria.
    abs
    antonio paulo

 

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