Chico, Carolina, Beatriz, Piazzolla, Ulisses

O sufoco foi grande. Dessa vez, não só os morros ficaram em alerta. Ruas, antes inabaláveis, entraram na dança das águas. A tensão deixou a população irritada. O sol saiu, colaborou para relaxar, mas os canais cheios e o comércio perturbado pelos prejuízos firmaram tensões. Até o Shopping Plaza se recolheu. O inesperado acontece e não briquem com as sinuosidades dos desencontros. O ano de 2011 não está gostando de linearidades, para  desespero dos sossegados. A vida segue. Não dá para se esconder e entregar-se ao pessimismo. Construir esperanças provoca  ânimo, mesmo olhando os desacertos  das administrações públicas. Temos, também, que tomar iniciativas, ser críticos e não esmorecer. A cidade é a nossa moradia. Por que não construir uma relação afetiva com ela e firmar compromissos de solidariedade?

É bom buscar outras luzes. Lembrei-me de uma música de Chico Buarque dos meus tempos de adolescente, a poesia solta e lírica, a curtição sacudindo o coração nas aventuras da paixão. Tudo isso compõe as relações sociais, não apenas os desmantelos e os egoísmos. Achei-me cantarolando Carolina, com versos reflexivos e de uma ternura singular. Chico canta que o tempo passou na janela e só Carolina não vi.  Fala da tristeza, dos olhos fundos, entra no mundo feminino com sensibilidade. A dor que Carolina guarda a faz distraída das outras coisas que não tocam na sua interioridade. O poeta quis expressar as medidas de um tempo envolvido em sentimentos profundos. Possui astúcias e cartografias próprias. É arquiteto de seus labirintos e construtor da sua gramática.

Quando observamos as diversas épocas, verificamos como as práticas sociais ganham formas diferentes. O ritmo da história, no entanto, não se resume, apenas, às transformações. A melancolia  passa por múltiplas culturas. As tragédias não são monopólio da contemporaneidade. Chico borda o tempo de Carolina, mas sabe que ele não é exclusivo. Há sentimentos que permanecem dentro de nós, consolidam expectativas, mesmo que estejamos desatentos ao que ocorre lá fora. As reações variam, pois as medidas e as circunstâncias não se fixam. Carolina é representação de um momento, onde a dor se espraia e paralisa.Veio-me, então, outra canção: Beatriz. Faz parte do Grande Circo Místico, peça de Edu Lobo e Chico Buarque.

Quem não se recorda de Beatriz de Dante,  autor da Divina Comédia, e  suas sabedorias universais? A musa não desapareceu. Mudou seus significados, porém a sua força histórica é contagiante. Muita gente usa o nome e nem desconfia da sua marcante memória. Nem todos conhecem os tempos passados e outros nem se articulam com os feitos da literatura. Não adianta lamentar. Cada um inventa seu caminho. Há quem prefira ler sobre as fofocas de televisão  ou os crimes passionais. Beatriz é um arcanjo, uma idealização estética inesquecível, tecida com palavras e melodias sublimes. Revela que quase sempre é sempre por triz e que os sonhos incorporam as ousadias e as virtudes, aconchegam e flutuam como beija-flores. Pois é. A respiração renova-se. Escrevo ouvindo Astor Piazzolla tocar Sur: Regreso Al Amor, acompanhando os voos dos tapetes mágicos. O manto de Ulisses sobreviveu. Por onde navegam os nossos encantos?

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

10 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Como as músicas contam histórias…
    Excelente texto, professor.

  • Flávia disse:

    Antonio,
    Em meio ao viver – morrer (justiça(?) ou vingança/espetáculo); tensões, incertezas; armadilhas, traumas, enchentes, assombrações, descuidos, perdas, desânimos, desencontros… Há espaço para reavivar a memória, movimentar o sonho, refletir, sentir o perfume das fontes limpas, buscar a transparência e não esquecer do azul… de buscar outras luzes! Que bom!
    Rezende nos ensina que, mesmo olhando tantos desacertos “não dá para se esconder e entregar-se ao pessimismo. Construir esperanças provoca ânimo”(…) “A cidade é a nossa moradia.”
    E também, nos instiga a parar, respirar devagar, se perguntar, de vez em quando: Será que, igual a Carolina, “o tempo passou na janela” e não vimos? Não sentimos? Não permitimos ser tocados…?
    “A dor que Carolina guarda a faz distraída das outras coisas que não tocam na sua interioridade”.
    Como viver sem se envolver em sentimentos profundos?
    Porque deixamos o tempo tramar, arquitetar labirintos, nos dispersar, nos envolver em tragédias, em melancolias…?
    Se Chico borda o tempo de Carolina, Dante o de Beatriz, Penélope o de Ulisses… “há sentimentos que permanecem dentro de nós, consolidam expectativas, mesmo que estejamos desatentos ao que ocorre lá fora”.
    Vale então a pena “incorporar os sonhos, as ousadias e as virtudes” e não perder a rota por onde “navegam os nossos encantos”!
    Muito lindo Antonio!!!
    Bjs
    Flávia

  • Rosário disse:

    Professor,

    “Por onde navegam os nossos encantos?” Profunda pergunta. Sua resposta carece de aprofundamentos na gramática de Manoel de Barros. Carece de adquirir um olhar de pássaro, um corpo de grama, voar fora da asa na imensidão azul. E fundamentalmente não saber nada sobre as coisas profundas. Caraolina e Beatriz não envelhecem em nossas memórias. São moças de sonho. E nosso tempo requer um canção tecida de “sonhos extraviados.” Chico indica que em algum lugar deve haver “um confuso casarão.” Lá os sonhos são reais. A vida, não. E assim segue a canção:

    “Um lugar deve existir
    Uma espécie de bazar
    Onde os sonhos extraviados
    Vão parar
    Entre escadas que fogem dos pés
    E relógios que rodam pra trás”

    Rosário

  • monique disse:

    Que lindo ensaio sobre a alma feminina…Chico é indiscutível!
    Em seu dvd gravado em Paris, ele ainda sugere não etender sobre as mulheres…talvez realmente não saiba..mas mesmo sem ´sem saber ´ ele acerta!! Belíssima a poesia desse texto e toda a sua sutil e bela intertextualidade…
    Sem dúvida,este foi um dos melhores textos do blog.
    Parabéns,Antonio.
    Abs

  • Monique

    Grato. Gosto de escrever sobre os afetos. Sinto-me bem e mais leve. Beatriz é bela, seus versos um encantamento.
    abs
    antonio paulo

  • Rosário

    Gostei da contribuição. Belas palavras, como sempre.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia

    Sua presença é sempre uma generosidade. Com certez, a vida é vasta. É o que que nos salva.
    bjs
    antonio paulo

  • Gleidson

    A música faz o mundo se reinventar. Isso é energia. Grato pela presença.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo disse:

    Chico Buarque pra mim é um compositor ímpar . Acho que é
    uma espécie em extinção , a forma lírica como escreve e o referencial que observa as coisas é totalmente original .
    Não sei se voces já ouviram a música “Subúrbio” a forma como ele fala da vida das pessoas humildes do Rio de Janeiro é encantadora.

  • Paulo

    Concordo. Difícil outro com a sensibilidade de Chico.
    abs
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>