Chico cantou Rita, Carolina, Beatriz, Ana …

Chico Buarque conserva seu lugar especial na música brasileira. A nostalgia bate quando nos lembramos  dos seus antigos sucessos. A memória afetiva é forte, dependendo das circunstâncias de cada um. Nunca neguei minha paixão por Beatriz. Seduz lá no fundo. Chico vem mudando a forma de compor, introduzindo outro jogo de palavras, inspiração e que respondem ao seu momento de vida. O tempo é  andarilho. As comparações são feitas e os julgamentos acionados. Há quem lamente, congelando as emoções e desprezando as novas canções do autor. Faz parte das idas e vindas dos admiradores. Elas não ganharam eternidade. Também, na arte, se opta por trilhas renovadoras mais radicais. A velha expressão mantém sua audiência: gosto não se discute.

Na minha adolescência, a música popular brasileira foi uma descoberta valiosa. Surgia uma nova geração, com criatividade contagiante. Caetano, Gil, Tom Zé, Chico, Edu Lobo, e tantos outros, contribuíram para formação da sensibilidade e  ressignificava a memória de bossa-nova. O Tropicalismo transformou conceitos, incomodou os conservadores, apaixonados pelo nacionalismo de raízes. O vocabulário era outro, o mundo pedia o debate sobre as drogas, o corpo, a sexualidade, os excessos do capitalismo. A arte não podia se ausentar das indagações. Curtia muito as polêmicas e ia mais fundo na história. Cartola, Noel, Nélson Cavaquinho entravam também na dança. Não faltavam opções.Sempre segui a diversidade. Ouvia Nélson Gonçalves, boleros, tangos e Roberto Carlos.

Meu contraponto adicionava os clássicos e as famosas óperas, por influência do meu pai. Portanto, a música fertilizava minha imaginação e minhas fossas. Um dia desses escutei Detalhes, de Roberto Carlos, e o coração se estendeu. É interessante como as coisas se balançam. Não cabem explicações objetivas. É magia, trama freudiana, tempos se misturando. Quem pensa matar o passado, em nome da pressa e da moda, perde contacto com a vida na sua multiplicidade mais surpreendente. Não me sentia menor porque navegava por tantos mares, pouco me importava com as gozações. Minha aventura não se encerrou. Os anos 1960 abalaram muitas tradições. Lá estavam The Beatles, Joplin, Hendrix. Continuam tocando, enfeitiçando os arcanjos e celebrando a vida  de cada um que os cultiva.

O Brasil estava tomado por uma forte censura, pela violência dos governos militares. Nem por isso, se deixou de compor. Não se esqueça de Vandré, das letras de protesto de Chico que se prolongam por todo esse período de opressão. Estou citando lembranças, mas há manifestações musicais que nos tocavam muito. Alegria, Alegria; Domingo no Parque; Soy Loco por Ti América; Eu e Brisa; Sabiá… A retomada de obras de João Gilberto, Tom, Newton Mendonça, a presença de Vinícius, Toquinho, MPB4, Baden Powell, Nara Leão, Elis Regina… Nem é possível sintetizar tanta história, porém a  música arquiteta seu fôlego e seu encanto. A transcendência acompanha e anima a cultura. Nada como redefinir as experiências, desfazendo-se das ideias de progresso e hierarquias imutáveis. Nem escrevi, aqui, sobre Davis, Glass, Al Di Meola,  Piazzolla, Sinatra, Billy, Satie, Armstrong, Ella Fitzgerald, Chet Baker. Melhor é escutar. O tempo ajuda.

 

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8 Comments »

 
  • Karuna de Paula disse:

    http://www.youtube.com/watch?v=f-Rs3pEF54Y

    Futebol é uma arte muito rica. Estava lendo sobre um tratado das paixões da alma humana, de René Descartes, filósofo sempre muito associado à racionalidade moderna, e pensei que através do futebol, um estudo sobre as paixõs humanas pode ser interessantíssimo. Pois o futebol é percebido, recebido e vivido pelas pessoas, de forma tão variada, rica, apaixonada; particular e coletivamente. Isso é muito espetacular. Futebol é um espetáculo que suscita paixões!
    Este vídeo, que apresenta o Chico Buarque falando sobre sua relação com o futebol,sobre Tostão, sobre as linhas imaginárias e o sem chão que é o campo, para o jogador, não são formas menos apaixonantes, ou menos poéticas que essa arte. Recebi ontem e lembrei-me de compartilhar com Antonio Paulo. Quando entrei em seu blog, vi essa postagem sobre Chico Buarque e resolvi aqui compartilhar o vídeo para que outos leitores deste espaço que publica assuntos tão variados e que me aprazem, também possam fazer suas apreciações.

  • Anderson Carlos disse:

    É impressionante como a arte da música consegue resistir ao tempo. Apesar de ter apenas 19 anos tenho simpatia por canções compostas tempos atrás como, por exemplo, aquelas tocadas nos festivais da Record. Mesmo tendo uma admiração maior por músicas de tempos que nem vivi, tenho certeza que quando estiver mais maduro terei pensamentos nostálgicos sobre as coisas vividas em minha juventude. Observo isso algo normal a todo ser humano. O que acho fantástico é o poder da música de trazer novos significados em novos tempos, pois uma melodia composta no passado pode ainda ser admirada por gerações do presente e em muitos casos com novas atribuições e sentidos. A música será sempre uma obra inacabada.

  • Anderson

    A música é arte que tem fascínio singular. Toca de um jeito especial no sentimento. Isso é bom.
    abs
    antonio

  • Karuna

    Grato pela boa visita e as sugestões.
    abraço
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo Mello disse:

    Prezado Mestre,

    Ouvi neste final de semana o novo cd de Chico Buarque,está exelenete.
    Parece que quanto mais velho melhor, ouvi dizer que o cd foi gravado
    na casa de Luiz Cláudio Ramos . sem pressa e sem o relógio financeiro apressando e diminuindo a qualidade.
    São dez música apenas de extremo bom gosto , bem diferente da nossa música comercial de sucesso que somos obrigados a ouvir no rádio.
    A minha predileta deste cd é barrafunda……
    Abraços……

  • Paulo

    Eu ouvi e gostei. Houve mudanças na forma de compor. É sempre bom ouvir Chico.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo Mello disse:

    Realmente mudou , mas na minha opinião mudou para continuar
    como era antes.

  • Paulo

    Com certeza, não perdeu o lugar de sempre.
    abs
    antonio paulo

 

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