Concepções de mundo, compromissos intelectuais

A morte recente do mexicano Carlos Fuentes acedeu lembranças e debates. Fuentes era comprometido, fazia críticas aos desmandos dos governantes, além de escrever com maestria. Ficou uma saudade imensa, mas seus livros circulam e provocarão outras leituras. Não serão vítimas de silêncios. Ganharão traduções, significados mais contemporâneos e mostrarão  que os intelectuais não devem recuar diante do aparente caos que nos cerca. Fuentes traz recordações de Octavio Paz, promoveu reflexões sobre as colonizações e as culturas que se instituíram na América. Foi inquieto, renovou na narrativa ficcional, firmou suas concepções políticas. Andou pelo mundo, conversando, imaginando alternativas para sair dos abismos.

A fragmentação e a quantidade de informações abalam expectativas. O dualismo se  fragiliza, pois a diversidade corre. Há quem, ainda, cultive o maniqueísmo, que adormeça nas velhas questões sobre o bem e mal. Existe lugar para tudo, dizem os pós-modernos. Não podemos negar os escritos entusiastas e belos de Eduardo Galeano, os mistérios e os acasos dos romances de Paulo Auster. Porém, a indústria cultural é ativa e nos coloca escolhas incessantes. Não esqueçam as músicas chamadas bregas, os pagodes, as duplas sertanejas e o imenso sucesso de Ivete Sangalo. É perigoso criar uma hierarquia estética e desmontar o gosto das maiorias.

Os intelectuais, ditos mais sofisticados, não estão ausentes do mercado. Como iriam sobreviver? Existem os que conseguem espaços surpreendentes, tornam-se ídolos, pensadores obrigatórios nas discussões acadêmicas. Necessariamente, a dificuldade em decifrar suas reflexões não os elimina das vitrines. Convivem com as idas e vindas da cultura. Alguns não brilham no seu tempo, mas depois voltam para iluminar outras épocas. Nietzsche sofreu. Hoje, é citado e celebrado como profeta. A mistura é colossal. As críticas que Castoriadis e Adorno fizeram, ainda, repercutem. Muitos não toleram a massificação, incomodam-se com produtos que, apenas, reproduzem o passado e desprezam a criatividade.

A complexidade da sociedade midiática exige outras formulações. Há quem não se ligue na historicidade. Há autores comprometidos com os problemas sociais e outros que preferem optar pela fama. Fuentes denunciou, anunciou seus projetos. Outros se preocupam com a vendagem das suas obras. Os intelectuais estão envolvidos com a construção da política, suas declarações transformam concepções de mundo e atiçam rebeldias. Não podemos, no entanto, esperar uniformidades, nem visões generosas e constantes que buscam finalizar explorações. O conflito se estende, os individualismos multiplicam os lugares de poder, os discursos modificam situações ou justificam desigualdades.

O território do pensamento é vasto, não é descompromissado. Numa sociedade com diferenças marcantes a luta pela dominação não se esconde do cotidiano. Os saberes encontram-se dissociados de neutralidades. Não somente os intelectuais possuem concepções de mundo. As relações sociais agitam grupos, desenham mapas, chegam a fermentar violências. Há utopias e pragmatismos, cinismos e desejo revolucionários. Somos espectadores de muitas coisas, sem perder cenários, nem tampouco deixar de fustigar as intrigas. Há muito mais que luzes e sombras, agonias e sorrisos. Os olhos se cansam, o sonho não se desfaz dos pesadelos. As vestimentas do mundo cabem em todos os corpos.

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