Conjugação de tempos: as histórias entrelaçadas


No século XIX, houve um otimismo muito envolvido com a exaltação do progresso. Não era geral, não fazia a cabeça de todos, mas proclamavam-se esperanças. Talvez, as discussões teóricas, as possibilidades das conquistas científicas ou os entusiasmos de muitos com a industrialização. Não esqueçam. porém, que socialistas, anarquistas, rebeldes, denunciavam as explorações do capitalismo. Havia desconfianças que se aprofundam com as guerras mundiais e os totalitarismos. O século XX trouxe perspectivas nada animadoras. A violência mostrou sua vontade de apagar convivências e atiçar tensões. A competição aumentava e quantidade de misérias fermentava desesperos.

Hoje, os tempos entrelaçados provocam reflexões ambíguas crescentes. As técnicas sofisticadas divulgam inegáveis astúcias. Há máquinas em todos os cantos. A sociedade do lazer não aconteceu, com alguns profetas anunciaram. Continuam as disputas, a concentração de privilégios, o cinismo bem articulado. Portanto, a história é cenário de complexidades imensas. Buscam-se interpretações, porém as dúvidas não fogem. Os desejos de sossego não se instituem, requintes de perversidades ganham espaços inesperados. O otimismo se debilita. O número de desfavorecidos não enfraquece e os poderosos inventam argumentos sempre suspeitos.

É importante entender que os tempos históricos se misturam. Há os quem resistem. Não saem do ritmo da linearidade. Não percebem os vaivens da afetividade, as armadilhas da solidão, as censuras subjetivas. Contam os dias de forma burocrática, menosprezando as instabilidades. As tragédias se formam e desmancham sociedades. Criam ansiedades incontroláveis. Elas reforçam esquisitos medos que são compartilhados por deslumbramentos com a internet. No entanto, não há como visualizar um mundo homogêneo, definido, enquadrado. Construímos fantasias que tropeçam nas curvas das primeiras esquinas. Restam perplexidades contínuas, restos de sonhos, sorrisos tontos.

Nossa relação com os tempos é um desafio. Não é recente. Uma visita às mitologias tradicionais, uma leitura dos livros sagrados de antigamente, um estudo dos motivos das guerras do passado nos acordam. Verificamos que as repetições não são incomuns. Os contemporâneos gostam de divertir-se com filmes que descrevem situações de outras épocas. Chegam a navegar em passados, encantados com paraísos, procurando quietudes rurais, como se fosse possível um mundo sem conflitos e ajustado com ordens absolutas. A massificação atua, mas sobram dissidências e incômodos, como entre os gregos, os romanos entre tantos outros povos. As culturas trocam saberes, se tocam, contudo possuem seus pertencimentos singulares.Os verbos conjugam-se e não prestamos atenção. Falamos, muitas vezes, usando um presente ou um futuro próximo insistente.

Nas academias dos saberes, exigimos metafísicas que não conduzem com os ritmos do cotidiano. Essa multiplicidade de ações nem sempre é colocada em questão. As conversas ajudam a  aproximar, estimulam generosidades. Mas o avesso também sucede. Há fundamentalismos que não dialogam. Há vinganças e ressentimentos que  se espalham. As soluções tornam-se enganadoras, mascaram tensões. Estamos na vida tateando, perdidos entre verdades, mentiras, utopias. Nem por isso, a história cessa de especular otimismos. Os descompassos negativos transformam acomodações. As gramáticas inventam palavras efêmeras que parecem segurar alguma coisa. Aprendemos a nos equilibrarmos na linha dos fios. Os malabarismos consagram ânimos frequentes. Há sequências e descontinuidades.

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