Contando as histórias: perdas e desfazeres

Contar a história é sempre um forma de evitar esquecimentos. Não significa que tudo pode ser lembrado, que podemos fazer um catálogo definitivo dos acontecimentos. Sabemos das ambiguidades da memória, sabemos das velocidades que invadem nossos afetos. Mas não custa semear cuidados. Não é apenas o passado que compõe a história. É preciso destacar o entrelaçamento dos tempos, insistir nos significados dos mitos, multiplicar as interpretações, inventar leituras que ajudem a se desfazer de perdas e construir outras alternativas.

Se as crises continuam nos cercando no cotidiano, os ressentimentos crescem, porque as culpas são levantadas. Há quem negue a participação coletiva, há quem se sinta completo afirmando acusações. Os desacertos existem e seu sujeitos não possuem a ingenuidade que afirmam. Se a lógica da acumulação segue as peripécias do capitalismo, a corrupção não vai deixar de acompanhá-la. A desigualdade não existe por acaso, nem todos são seus cúmplices.Mas se a exploração não se vai e a concentração de riqueza anima a minoria que costura o poder é impossível impedir as perdas.

As sociedades vivem conflitos, seus territórios registram misérias e violências. Elas se espalham e provocam instabilidades constantes.Na Europa, o desequilíbrio vence tradições, o números de desempregados aumenta, universidades fecham cursos, os centros urbanos recebem emigrantes em busca de saídas. O avesso: os antigos colonizados desejam respirar, cobram lugares para refazer suas vidas. O choque cultural se aprofunda, com as religiões exacerbando suas crenças e motivando vinganças.

As epidemias são frequentes, apesar de tecnologias e saberes sofisticados.Há milhões de pessoas sem moradias, com dificuldades de encontrar alimentação.A mídia reforça o negativo quando justifica situações precárias e centraliza noticiários. O mundo, na sua diversidade cultural, possui labirintos e impasses na comunicação afetiva. A produção de armas, o comércio das drogas, os terrorismos, a vitimização escondem histórias. O exibicionismo tem seu preço, cria espelhos para acolher ambições, não se arquitetam convivências sem fantasias.

Quando observamos que os tempos conversam, que as desarmonias marcam os registros da memória, sentimos que as perdas coletivas assombram. Vender imagens como mercadorias, como uma estética da dominação é optar que as pedras nunca saiam do meio do caminho. Se os poetas anunciam apocalipses, há também possibilidades de reinvenções. A sociedade tem se fechado no culto a valores e julgamentos que despedaçam corpos e ânimos. As portas podem ser abertas, porém as chaves estão enterradas. Os divertimentos transformam-se em rituais perigosos e tensos. Enganam.

 

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