Contos de fada, contas da bola, negócios soltos

Gosto de ler as chamadas histórias infantis. Desde os tempos que aprendi as primeiras letras. Comprava livros e os conservei com afeto. Viajava nas aventuras. Ainda, as considero valiosas, porque a magia não está dissociada da vida. Não consigo ver o mundo sem mistérios. A racionalidade me deixa intrigado. Faltam, sempre, explicações, tudo parede interminável. Pinta uma vontade de desistir de formular tantas perguntas, e naufragar em muitas dúvidas. No entanto, a vastidão dos significados é também um estímulo, para sairmos da mesmice vazia. Soltar a imaginação é uma dádiva. Monstros, fadas, dragões, princesas, cavaleiros andantes compõem um universo de fantasias contínuas.

Não abdico de retomar leituras que, para muitos, são inúteis. Os objetivismos excessivos trazem geometrias enfadonhas. A ideia de conjuntos harmônicos, sem arranhões e dissidências, não convence. Por isso, os desejos de transcendência não se ausentaram  de uma sociedade tão repleta de frações e de vitrines tecnológicas. A transcendência não possui, apenas, uma dimensão religiosa. Ela atravessa muitos sentimentos. Ela se anuncia buscando o diferente, escapando das artimanhas do cotidiano. Ir além do que é visível é sonho, encontro, rompimento, transgressão.

Os negócios tentam limitar certos voos que incomodam os mais disciplinados ou os planejamentos do capitalismo. Fazem ficções, com objetos ornamentais, e desprezam os suspiros do coração. Desenham acumulações, com ares de paraíso. A riqueza material unifica comportamentos e consagra valores de medidas comuns, dentro do controle dos governos e das espertezas dos lucros. O contos de fada valem, quando transformados em livros, com preços astronômicos. Felizmente, nem todos se agarram na sedução da troca monetária. O espaço da resistência garante que a vida, solta, quebre prisões.

Contas e contos. Ídolos e mitos. Imagens e corpos. Quantas palavras e conceitos frequentam os lugares de consumos e criam expectativas para os desafortunados ! Lembro-me , sempre, do futebol, pela força que entra na cultura e pelos investimentos, cada vez maiores, feitos pelas empresas, para consolidá-lo como negócio oportuno. Um micro-mundo que sintetiza tantas coisas, mas que sofre menosprezo de alguns, por falta de profundidade dos olhares. Não esqueçam dos exemplos que se destacam na imprensa. Concorrem com as tragédias e as peripécias do Carnaval. Há público para tudo.A disputa, pela transmissão dos jogos lança milhões no mercado. Os clubes simulam brigas e ninguém sabe quais os interesses que dominarão. Tão sutil como  os vaivéns das moedas e papeis financeiros.

As cores das torcidas distraem e as rivalidades ocupam as mentes e as emoções. A transparência está distante dos acordos feitos. As simulações acompanham os gestos e os discursos. O futebol se mistura, com tantas manipulações, que desengana e amargura quem confia na paixão pela vitória, despida de suspeitas.A construção de ídolos é outra forma de atrair negócios internacionais. São os mitos pós-modernos. Os clubes viram empresas, os jogadores sentem-se artistas de espetáculos inimitáveis. Muitos desandam, jurando inocência. Observem a trajetória de Ronaldinho e Adriano. É a obscuridade se infiltrando em cada manobra. Será que a ingenuidade, a desinformação ou o privilégio que os tornam especiais? Não sei, mas o inesperado tumultua e desalenta.

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6 Comments »

 
  • marcio lucema disse:

    Antonio,

    o novo visual do blog ficou excelente…
    me lembrou Turner…

    abraço
    marcio lucena

  • Márcio

    Gostei de tê-lo por aqui. A vida também é mudança.
    abs
    antonio rezende

  • Flávia disse:

    Antonio, também gosto das histórias infantis. Na trajetória de professora de crianças pequenas amava ver o fascínio refletido no brilho dos olhos da meninada nos momentos de leitura, sempre seguidos dos famosos “conta de novo”. Assim também foi com os filhos, na hora de dormir, um prazer de mão dupla.
    Foi depois de uma história para crianças da Educação Infantil, em uma escola de Brasília Teimosa, que um menino de apenas 6 anos, morador de uma palafita, me lançou em um mar de dúvidas sobre a minha atuação como educadora. Depois da história dos 3 porquinhos ele me disse com ar de “chateação” que não tinha gostado da história porque a casa dele não era de tijolo, mas o seu pai não era preguiçoso. (???) Realmente Antonio, o “inesperado tumultua e desalenta”, mas também educa.
    Quem foi o educador dessa história? Quem são os contadores das grandes histórias (de dentro e de fora)?
    Não importa se é o menino, o poeta, o historiador, o mestre, o filósofo… Será sempre aquele que nos ajuda a formular perguntas, que nos apresenta “uma vastidão de significados”, que nos estimula a sair “da mesmice vazia”, que nos convida a transcendência, que nos instiga a escapar das “artimanhas do cotidiano” (…)
    Como ensina Rezende, “Ir além do que é visível é sonho, encontro, rompimento, transgressão”.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Quando o mundo se mexe com a solidariedade, movem-se esperanças. Por isso, muitas lembranças nos levam a meditar sobre a nossa condição. Há muita coisa no ar.
    bjs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    A fim de tentar se livrar um pouco do tédio da objetividade da rotina cotidiana…as pessoas poderiam tentar por, em suas vidas, uma dose de imaginação QUIXOTESCA e buscar a transcendência alçando vôos tão ousados quanto o de Ícaro!
    Não creio na razão como único elemento a ser praticado para obtenção de uma vida feliz….aposto mais num equilíbrio(saudável) entre a seriedade e o devaneio.

  • Monique

    O importante é avivar a autoestima. A vida tem idas e vindas. É cheia de desafios. O equilíbrio é uma busca decisiv.
    abs
    antonio paulo

 

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