Conversas freudianas e nostálgicas

Freud viveu tempos de muitas contestações. Não ficou ausente das polêmicas. Procurou, com suas observações, redefinir valores. Outros conhecimentos sobre o fazer humano que abalaram tradições. O século XIX foi inquieto. Marx e Darwin contribuíram também para questionar verdades e modificar concepções de mundo. Não podemos esquecer Nietzsche e tantos outros que propuseram novos olhares e novos sentimentos. Freud, portanto, não estava isolado, tinha seus diálogos e gostava de aprofundar suas reflexões que dissolviam preconceitos e crenças.

Foi adiante. O século XX trouxe as guerras mundiais e os totalitarismos. A pulsão de morte se espalhava com ajuda de técnicas e violências frequentes. As utopias não conseguiram, de forma radical, assanhar os sonhos. As guerras e os autoritarismos firmaram desconfianças. Depois de tantas descobertas, a sociedade ainda disputava riquezas, concentrava privilégios, provocava ressentimentos. Freud assinalou todos esses contrapontos na sua obra. Não ficou alheio, frustrou-se e morreu depois de redefinir alternativas que havia pensado.

As opressões não abandonaram a história. A tecnologia produziu sofisticações que levaram a bombas que banalizaram as violências e inibiram os afetos. Nos tempos atuais, a indústria armamentista tornou-se uma fonte de lucros indiscutível. Os conflitos existem, muitas vezes, estimulados pelas potências seduzidas pelo constante aumento de poder. A frágil democracia treme. Existem milhões de refugiados, as religiões justificam inimizades, os labirintos crescem e ganham arquiteturas caóticas.

Freud viveu um tempo de adversidades. Mas haveria momentos de silêncios e de encantos? Tudo não está contaminado pelas disputas e fortalecendo os cinismos? As teorias anunciadas por Freud não estão tão distantes da contemporaneidade. A felicidade é um equilíbrio instável.  Apresenta-se como uma mercadoria de valor incomensurável. Há ambições fabricadas. na pressa do consumo. que se refazem facilmente. O mal estar não se perdeu, as incertezas dialogam com as incompletudes, mas há quem manipule paraísos no meio de ingenuidades cotidianas.

Nem tudo simboliza o descontrole e o desgoverno. A história não é linear, possui idas e vindas, desenha formas desiguais,  não foge dos escorregões e das verdades efêmeras. A aldeias global, hoje, testemunha confusões convivendo com promessas salvadoras. As fronteiras que diferenciam a verdade de mentira são espelhos com imagens distorcidas. Freud não se ausentou das questões básicas. Houve a afirmação de outras relações sociais, porém as carências não foram superadas pelas acrobacias das soluções químicas e monetárias..

Estender o afeto numa sociedade que estimula a competição é observar que as euforias têm preços e são pagas, muitas vezes, com os juros mágicos do cartão de crédito. A nostalgia do paraíso perdido não se foi. O discurso da culpa não cede seu lugar no profano e no sagrado. Existem explicações que tentam desvendar mistérios. Há quem se conforme e aposte no brilho das vitrines. O passado é apagado por novidades descartáveis. Há quem se segure no imediato, pouco ligando para os desamparos que se multiplicam. Ficam as dúvidas viajando nos seus tapetes mágicos.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>