Convivências: conversas, redes, afetos

Quem se lembra do telefone e suas longas chamadas deve ficar perplexo com os e-mails e as comunicações recentes. Há uma pressa e uma síntese constante. Ficamos contemplando palavras e, muitas vezes, sem compreendemos os sentidos colocados. Uso as redes sociais, frequento facebook, mas não nego que gosto da conversa pessoal. Nada como olhar nos olhos, pescar a emoção, encontrar semelhanças. Quebrar formalidades traz respiração renovada. Como precisamos de buscar espaços para fermentar a solidariedade!

Cada tempo cultiva seus encontros. Já houve ausência de tecnologias mais sofisticadas, quando as cartas circulavam com declarações e queixas. Escrevi muitas. Não havia tanta censura e o mergulho ajudava a apagar desmantelos. As proximidades eram outras, com imaginações que fugiam a certas mesmices que se mantêm no mundo da globalização. Multiplicam-se os anseios por novidades. A reprodução das noticias substitui os segredos íntimos.

O que observo é a ausência de profundidade. A lei do pragmatismo possui um império extenso. Marcar encontros tornou-se algo que requer rituais externos. O que significa isso? Pouco convidamos as pessoas para repartir os ares das nossas moradias. Somos aprisionados pelos barulhos dos cafés e restaurantes. Não sabemos como mover as gramáticas. Outro cotidiano nos abraça, muito longe dos tempos dos cinemas pequenos, sem a pipoca eletrônica.

Os exemplos não são escassos. Quem navega pelo facebook encontrar um incomensurável número de fotografias. Há quem registre grandes acontecimentos pessoais com zelo exemplar. É uma exposição, muito diferente das feitas em pequenos grupos. Somos vistos, comentados. A fofoca corre solta e as malícias firmam posições. Os amigos virtuais vivem outro ritmo, formam suas redes de rebeldias, mas não poderiam ser os mesmos dos anos 1960.

Não vou, aqui, fixar modelos ideias de convívio. Depois, nunca nego que os tempos se misturam. Há pessoas quee não se afastam das suas tradições. Nem tocam nas teclas do computador, apreciam os bancos das praças, os encontros nos bares pouco badalados. No entanto, a maioria é da agitação. Como fica a afetividade sem uma conversa demorada, uma lágrima ou um sorriso registrando memórias?

Estranho quando alguns menosprezam as histórias afetivas. Quem se esconde termina se desconhecendo. Mas o mundo não requer transparências. Os cinismos são valores de troca e a felicidade é uma mercadoria. Discute-se sobre os caminhos da salvação. Não falo das religiões. Destaco o encanto daquelas conversas preguiçosas, as configurações das geometrias da vida. Cada conversa muda visões do passado, nem sempre gratificantes.

Quem não abandona as histórias entende que a complexidade da vida é mesmo permanente. Se há transformações na forma de se divertir, de inventar cotidianos, há também vestígios do que se foi que não podem ser  sepultados. A história perde quando ressuscita a linearidade. O tempo  é mágico, porque arquiteta mistérios. Como dizem os existencialistas, a vida é projeto. Não há como aprisioná-la e rascunhar o destino final. O inacabado não cessa. As fotografias possuem  palidez e silêncio que, muitas vezes, nos enganam.

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