Guy Debord: o espetáculo continua?

O livro de Guy Debord ganhou fama: A Sociedade do Espetáculo. Livro crítico que mostra os vazios e contradições que nos assustam. Dialoga com Marx, Freud e não deixa o capitalismo em paz. Denuncia que é preciso transformar, sair da exploração, pintar com outras cores à cultura.Não custa lembrar que Marx é um pensador do século XIX. Todos sabemos que a sociedade se movimenta. Há quem acredite no progresso, na benevolência da ciência. Marx levantou questões ainda persistentes, mas já estamos no século XXI. A história atropela, promove genocídio, debates. teorias. A perplexidade é geral, embora a verdade sempre tem capa de fragilidade. As continuidades se misturam com as descontinuidades. A compulsão à repetição marca a sociabilidade.

Guy Debord segue a crítica, observa o jogo da mercadorias, as ilusões permanentes. Muitos se apaixonam pelo modelo brilhante de espetáculo. Escutam simulação de paraíso. Esquecem as armadilhas, os esquemas de poder , o capitalismo concentrando riquezas. O importante é verificar como se dão as mudanças. Não há a igualdade recitada pela modernidade. Tudo se mantém dominado pela opressão. Os disfarces não podem deixar de existir. A sociedade do espetáculo é cruel, porém não foge dos enganos, faz suas parcerias com a burocracia e impessoalidade. Quem não se lembra de Kafka? Quem não rasga identidades instigando redenções?

O maio de 1968 poderia ser a revolta magistral. Não faltaram teorias e Debord deu sua colaboração.Como seria bom derrubar as hipocrisias, os saberes cínicos, as hierarquias presentes nas instituições? 1968 envolveu-se com as teses de Debord, Castoriadis e outros.Fez em poucos uma agitação inesquecível. Os jovens nas ruas, nas fábricas, desafiando à repressão. Havia sonhos, eles devem segurar desejos, não admitir fracassos, acusar governos. Se depois vem o fracasso, vale destacar a experiência. A história não navega no nada, não é inércia, possui equívocos, representa onipotências de divindades que julgam secamente.As rebeldias de 1968 se espalharam pelo mundo. Seus teóricos trouxeram novas ansiedades, desfizeram conservadorismos.Não houve a vitória, a burguesia manteve sua dureza, mas houve abalos. A nudez da exploração ampliou as inquietações e amedrontou os conformados.

Talvez, muitos tenham compreendido melhor o que significa o fetiche da mercadoria ou a força da cultura como moeda de troca para assegurar a alienação. Nas análises é fundamental entrelaçar os olhares, não desprezar os toques, não ficar entusiasmado pelas novidades. É perigoso o que ocorre em muitas sedes acadêmicas. Constroem vitrines para festejar autores, sem se ligar nos tentáculos do autoritarismo. Criam outro espetáculo. A crítica veste-se de novidades e seus intérpretes ídolos celebrados, devorados como uma caixa de chocolates. O feitiço não se acaba e convence. Amem ou amém? Não deixem a reflexão trazer o sossego. Desconfiem de humildades ensaiadas. Há quem despreze a autonomia e consagre a exibição em nome da ciência.

 

Foto:Guy Debord

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